Carlos Carvalho Cavalheiro: ‘Consciência Negra’

20/11/2020 15:02

Carlos Cavalheiro

Consciência Negra

Atribui-se ao ativista sul-africano Steve Biko o conceito de “Consciência Negra”, o qual teria sido delineado num texto escrito em 1971. Nesse escrito, Biko traz a discussão sobre a negritude, afirmando que não basta a pigmentação da pele para que se possa definir, ipso facto, alguém como negro. Para ele, ser negro é mais uma atitude mental, portanto de consciência, do que de tonalidade da tez.

Steve Biko dizia, em seu texto, que “Consciência Negra é, em essência, a percepção pelo homem negro da necessidade de juntar forças com seus irmãos em torno da causa de sua atuação – a negritude de sua pele – e de agir como um grupo, a fim de se libertarem das correntes que os prendem em uma servidão perpétua. Procura provar que é mentira considerar o negro uma aberração do “normal”, que é ser branco. É a manifestação de uma nova percepção de que, ao procurar fugir de si mesmos e imitar o branco, os negros estão insultando a inteligência de quem os criou negros. Portanto, a Consciência Negra toma conhecimento de que o plano de Deus deliberadamente criou o negro, negro. Procura infundir na comunidade negra um novo orgulho de si mesma, de seus esforços, seus sistemas de valores, sua cultura, religião e maneira de ver a vida”.

Numa sociedade marcada pela discriminação, como era a África do Sul da época do Apartheid (política de segregação racial que durou até o início da década de 1990), era importante ao negro reconhecer que a “normalidade” não era o mundo construído pelos brancos, do qual os negros seriam enxertados. A normalidade deveria ser a igualdade entre negros e não-negros, garantindo a todos o direito de manter suas crenças, seus costumes, seu modo de viver, sua cosmovisão, sua religiosidade, a expressão de seus valores e de sua cultura e estética.

Por isso, a necessidade da tomada de consciência do que é ser negro. A adaptação ao mundo dos brancos não é ser negro. Adotar símbolos da cultura dominante para ser aceito pela sociedade é não ter consciência de seus próprios valores. Nesse sentido, vivemos uma época que a aberração toma conta de tudo e, por isso, nos ressentimos do retrocesso que esmaga nossos corpos e nossa alma.

O presidente da Fundação Palmares, jornalista Sérgio Camargo, nomeado pelo governo Bolsonaro, diz que a instituição promoverá “consciência negra zero” e que o movimento negro é “escória”. Sérgio Camargo representa, apesar da tonalidade de sua pele, o pensamento conservador e dominante – portanto, “branco” – reforçando pensamentos como o de que a escravidão foi benéfica para os africanos e seus descendentes.

O movimento pela Consciência Negra se faz mais urgente hoje do que em outras épocas. Muito além da luta pela formalização de um feriado, é preciso difundir seus fundamentos e levar o debate para a sociedade. A reação já se fez notar em alguns acontecimentos. A eleição de Joe Biden, nos Estados Unidos, alicerçou-se no movimento “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam), pois o candidato democrata apontou para uma direção diferente da atitude retrógrada e reacionária do seu adversário Donald Trump. Enquanto o atual presidente dos Estados Unidos usou da truculência contra os manifestantes do “Black Lives Matter”, não se importando, aparentemente, com as mortes de cidadãos negros, Joe Biden chamou para compor a sua chapa, como vice-presidente, uma mulher negra, a senadora Kamala Harris.

No Brasil, ainda nesta semana, o resultado das eleições municipais no Brasil apontou um aumento percentual de candidatos negros eleitos. De acordo com o site da Câmara dos Deputados, foram eleitos em primeiro turno pouco mais de 32% dos candidatos negros. É um avanço tímido, mas aponta para uma mudança. Por outro lado, em cidades da nossa região, o número de candidatos negros eleitos é baixo, quando não inexistente. Da mesma maneira, o número de mulheres.

No entanto, por uma questão conceitual, o conservadorismo tende a cair. Não há como manter por muito tempo as instituições sociais tradicionais no contexto da cultura e da civilização porque os tempos mudam e as mentalidades também. Sempre haverá um saudosista nostálgico lamentando os novos tempos. Mas ele será, em breve, uma voz solitária na multidão. Como Trump em seu escritório hoje.

 

Carlos Carvalho Cavalheiro

18.11.2020

 

 

 

 

 

 

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