Arvelos Vieira: ‘Não somos um país laico?

01/05/2019 21:23

Arvelos Vieira

“Laico: que, ou aquele que não pertence ao clero nem a uma ordem religiosa; leigo.”

Imagem pesquisada na internet

Nos anos 30, 40, 50, acompanhando a tradição desde o surgimento do Brasil, vivemos num país tradicionalmente Católico Apostólico Romano fervoroso. Lembro-me de uma única religião que se mostrava adversária declarada ao catolicismo, a Protestante, mas nunca com força ou pressão para importuná-lo, que sempre “nadou de braçada” nessa terra varonil, mantendo o domínio religioso praticamente de tudo e todos.

Nesses idos tempos de total dominação, as festas religiosas eram concorridas, riquíssimas, oportunidade dos seus participantes popularizarem-se e também, garantia de votos em eleições políticas. Ser festeiro era uma honra, prestígio, havia até mesmo disputa para isso. Participar dos concursos “Rainha da festa”, ter padrinho influente era de bom alvitre.

Sábado e domingo era a missa da sociedade; senhores, senhoras e seus filhos todos bem engomadinhos, desfilando cada qual no seu modelito mais atraente que o outro, fazendo das celebrações uma grande vitrine social donde ninguém ousava ficar de fora. As comunicações oficiais da população ocorriam muito mais através de potentes alto-falantes instalados no alto das torres das igrejas, de modo o som chegar o mais longe possível nas comunidades. Enfim, tudo girava em torno do catolicismo, das suas celebrações, dos seus eventos e inventos festivos e, principalmente, dos seus “Santos Padres”, que, aliás, nem todos eram “padres santos”, rsrsrs.

Falando em padre, como o danado era bajulado. Era mais importante que o prefeito, o delegado e o juiz juntos. Era Deus no céu e o “Santo Padre” na terra. Se Pároco então? (O manda-chuva da igreja!), tinha a “faca e o queijo” nas mãos com direito a cortar do jeito que quisesse.

Dias de domingo e feriado o padre não sabia qual residência escolher para fartar-se dos auspiciosos banquetes que as beatas das igrejas faziam para agradá-lo. A presença do padre nesses almoços, se duvidar, era disputada quase que a tapa pelas fervorosas (algumas mais para fogosas!) que faziam questão da sua presença.

Nesse áureos tempos, realmente os padres viviam com seus “burros na sombra” de tão paparicados que eram. Digo isso com conhecimento de causa, pois fui coroinha, e almocei em muitas casas acompanhando o padre, e podem acreditar, cheguei a ver coisas que, só não digo que Deus duvida, porque tenho certeza que ele também viu, mas, como “Ele” sempre foi muito discreto, tudo se acomodou para sossego e alívio de “alguns” e “algumas”, que puderam continuar convivendo com “chifres adormecidos e mansos, como se nada tivesse acontecido rsrsrsrs!).

Nas escolas, geralmente às quintas-feiras aconteciam as aulas de religião, ou seja, não outra senão a Católica Apostólica Romana. Os meninos que não a seguiam, fossem protestantes ou espíritas, tinham licença para retirarem-se da sala e ficarem vagando pelo pátio da escola até o final da aula. Éramos a grande maioria, e eles, coitadinhos, eram os excluídos da “sociedade”, é assim que eu vejo hoje aquela situação do passado.

Os tempos passaram, as mudanças naturais ocorreram e, em 1988 a Constituição Federal declarou o nosso país LAICO, ou seja, não mais vivendo no cabresto de nenhuma religião, ou seja, a CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA, e pudemos ver isso claramente quando os jogadores de futebol profissional foram proibidos de exporem aos torcedores em geral, gravações nas suas camisetas internas contendo mensagens como: “DEUS EXISTE!” …, “O SENHOR É MEU PASTOR!”, coisas do tipo, levando em consideração que a multidão presente ao Estádio, representa a diversidade de fé religiosa, logo, todos os presentes ali devem ser respeitados por igual.

Hoje temos uma infinidade de religiões, fora a católica. É certo que grande parte são ratoeiras conduzidas e comandadas por vigaristas e salafrários com o dom de transformar seus seguidores num bando de idiotas e estúpidos. Esse tipo de convencimento sempre conhecemos por HIPNOTIZADOS; depois que passaram a surgir essas religiões, passamos a conhecer por IDIOTIZADOS.

Portanto, todos esses que vivem a diversidade de fé, mesmo os idiotas e estúpidos citados a pouco, não são obrigados a dançar a música imposta pelos católicos, como aconteceu até pouco tempo.

Com a decretação do Estado Laico, o ditado “O direito de um termina onde começa o do outro!” passou a ter grande valia. Por outro lado aqueles que são contrários ao catolicismo não podem sair por aí quebrando imagens de santos católicos em represália a rivalidade, um grotesco afrontamento a fé alheia.

Eu sou um católico sem vergonha, ou seja, não praticante. Não frequento igreja, e muito menos tenho ido às missas. Comunhão, salvo engando, a última que recebi, o padre ainda colocou a hóstia na minha língua, isso, no meu casamento, há 42 anos atrás, porém eu cultuou imagens santas dentro da minha casa como a do São Jorge, a da Nhá-Chica, e até pouco tempo guardei com carinho, por uns 20 anos, a imagem do São Cristóvão, que me foi doada pelo amigo Caruso, salvo engano por ocasião da inauguração da Praça São Cristóvão, no final do Segundo Retiro, em Cruzeiro. Infelizmente essa imagem, já surradinha, apareceu quebrada nessa minha última mudança. Amigos evangélicos tentaram convencer-me a sumir com minhas imagens. Apenas tentaram, jamais conseguirão. Mas eu cultuo minhas imagens, dentro da minha casa, onde eu moro e trabalho, portando no meu território, onde não tenho que prestar contas e muito menos dar satisfação a quem quer que seja, nem para esse tal de “laico”, rsrsrsrs.

Agora sejamos justos, honestos e pés no chão; o fato de eu ser católico, não me credencia e concordar com a continuidade e predomínio da religião católica sobre as demais, num país onde muitas outras religiões brotaram e brotam quase todos os dias (parecem filhos de “coelho!”) pregando teorias diferenciadas, mas que devem ser respeitadas por viverem num país laico.

Em sendo assim, estabelecimentos públicos e principalmente setores públicos como praças, ruas, vielas, pontes, postos de saúde, Santas Casas, pontos de táxi, não devem e não podem mais ser batizados com imagens ou nome de santos católicos como comumente vem acontecendo, vez que todos, indistintamente, católicos, evangélicos, protestantes, espíritas, macumbeiros, e quantos mais existirem, são iguais perante a Constituição Brasileira, iguais pagam impostos possuem as mesmas obrigações e deveres, o que lhes dá o direito de terem também os mesmos direitos, que é de terem respeitada a linha religiosa de cada um. As homenagens “já realizadas”, são direitos que devem ser mantidos, respeitadas, mas daqui pra frente, isso tem de ser mudado, ou melhor, tem de ser evitado, pois se está confrontado com a lei..

Ser devoto desse ou daquele Santo, é um direito de todos os católicos, como eu sou do São Jorge e cultivo sua imagem na minha privacidade. O que não pode é, digamos, ser criado uma praça pública, digamos, com o nome de “São Jorge”, sabendo ter sido ela construída com o dinheiro de “todos”, em detrimento àqueles que não admitem tais manifestação. Isso eu entendo como IMPOSIÇÃO GUELA ABAIXO, e não pode continuar no país LAICO que vivemos. Fica aqui o meu pensar, gostem ou não, apesar dos pesares!”

 

Arvelos Vieira – arvelosvieiraneto@gmail.com

 

 

 

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