Arvelos Vieira: ‘A realidade como ela é! …’

06/07/2019 13:41

Arvelos Vieira

A realidade como ela é!…

Hoje eu acordei com o pensamento voltado para aqueles entes queridos que nos deixaram. Uma família numerosa, de muitos almoços, jantares, churrascos, enfim, reuniões deixadas para trás de nunca mais. Entes queridos que utilizaram por toda suas vidas, da ferrovia, muitas idas e vindas, entre elas, algumas vezes eu junto. Entes queridos que, como a ferrovia, não existem mais, deixando-nos uma grande saudade.

Eu nasci no ano de 1955, na pacata bucólica Passa Quatro das Minas Gerais. Lá residi até o ano de 1963, quando meus pais rumaram para Cruzeiro, vindo papai assumir suas funções de Funcionário Federal – Ferroviário, na maior estação da região, por ser o entroncamento de ferrovias dos três principais estados do país; São Paulo – Rio de Janeiro – Minas Gerais.

Entre 11 e 14 horas, o pátio da estação de Cruzeiro se tornava pequeno para tanto movimento. Era um trançar de passageiros que não acabava mais.

A muvuca tinha início com o trem expresso de prefixo PC2, que chegava das Minas Gerais, atracando na estação de Cruzeiro por volta das 11h40. Dele desembarcavam passageiros de retorno à Cruzeiro; amigos mineiros que vinham em visita a seus parentes residentes em Cruzeiro, cidade de tradição mineira; passageiros que vinham às compras e retornavam horas depois no mesmo trem e também passageiros com destino à São Paulo ou Rio de Janeiro, vez que os trens de aço oriundos das capitais opostas, aqui cruzavam diariamente entre os horários das 12 e 13 horas, salvo engano, composições denominadas de prefixos DP1 e DP2.

A estação era (ainda é, embora hoje fantasmagórica!) uma só, porém dividida ao meio. Do lado da antiga zona de meretrício, pertencente a Central do Brasil, recebendo os trens das capitais paulista e carioca, denominada EFCB – Estrada de Ferro Central do Brasil e do lado oposto, do centro da cidade, a “5ª Divisão Centro Oeste”, última nomenclatura recebida e sepultada com a ferrovia. Ela foi fundada com a denominação “Ferrovia Minas e Rio”, no dia 14 de Junho de 1884, ligando 170 entre Cruzeiro/SP e Três Corações/MG. Depois disso recebeu outras deniminações como “Estada de Ferro Sul Mineira’, “Rede Mineira de Viação”, “Viação Férrea Centro Oeste” e por fim, 5ª Divisão Centro Oeste”.

Os trens que aqui chegavam vindos de São Paulo e Rio de Janeiro além de embarcarem os passageiros oriundos do Sul de Minas, desembarcavam uma infinidade de outros passageiros com destino as plagas mineiras, principalmente nos finais de semanas e feriados prolongados. Eram os chamados “turistas balneários” ou “turistas das águas”, que chegavam eufóricos em especial as mulheres comumente trajando roupas coloridas, bermudas, chapéus e óculos grandes, além das suas volumosas e pesadas bagagens, dando trabalho aos “carregadores”, senhores vestidos num terninho branco, surrado, quepe da mesma cor e um carrinho para o transporte dessas bagagens, movimentando-os de um lado para outro. Era nítido o cenário da visita turística balneária na plataforma de Cruzeiro.

Logo em seguida esses turistas embarcavam para o Sul das Minas Gerais no trem expresso, aí, de prefixo “PC1”, que tendo chegado as 11h40, já se encontrava posicionado na plataforma da estação, pronto para a partida que acontecia impreterivelmente às 13h40, com sua composição já varrida e aromatizada.

Era uma composição extensa, geralmente contendo 12, 14 carros de passageiros, as vezes até mais, para transportar tantos turistas. 

Os carros tinham placas de identificação do lado externo, bem no centro de cada um. O circuito das águas procurado era: Passa Quatro, São Lourenço, Caxambu, Cambuquira e Campanha, e a identificação permitiam aos turistas se acomodarem nos carros que os levariam aos seus destinos. Na cidade de Soledade de Minas a composição era partilhada em 3 outras.

O carro de São Lourenço seguia em frente, juntamente com outros, tendo como destino Belo Horizonte, passando por Conceição do Rio Verde, Três Corações, Lavras e outras cidades no itinerário. Os passageiros com destino à cidade de Itajubá, Caxambu e Cambuquira/Campanha, os seus carros eram deixados em Soledade de Minas por um certo tempo, até a formação de duas outras composições que os acoplavam em suas caldas e seguiam em direção aos destinos finais.

O carro com destino a Cambuquira e Campanha, seguia na composição de Três Corações, sendo deixado um pouco mais na frente, numa estaçãozinha de roça, sendo formado uma outra composição passando antes por Olímpio Noronha e Jesuânia para depois chegar em Cambuquira e Campanha. Essa composição tinha como destino final a cidade de São Gonçalo do Sapucaí.

A composição com destino a Itajubá, seguia em frente passando por Santa Rita do Sapucaí, Pouso Alegre, não sei ao certo seu destino final, acredito, Ribeirão Vermelho. Da mesma forma a composição de Caxambu, que seguia para Baependi, Cruzília, Aiuruoca e outras cidades.

No retorno, essas composições vinham dos variados destinos e novamente encontravam-se em Soledade de Minas, onde se ajuntavam numa única, para que todos fossem trazidos de volta à Cruzeiro, repetido o formigueiro em situação inversa na estação, com cada qual procurando o seu rumo, e outros tantos, já s aglomerando para o embarque a Minas Gerais.

Esse processo era rotineiro e nos finais de semana e feriados, era um verdadeiro enxame de passageiros, das idas e voltas, das muita conversa, risadas, beijos, despedidas, lágrimas e abraços, dos bons tempos que só quem viveu sabe da emoção que era, hoje apenas saudosa memória.

 

Arvelos Vieira

arvelosvieiraneto@gmail.com

 

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