Artigo de Guaçu Piteri: ‘Bar do Povo – um balcão de histórias – VI’

28/06/2015 14:02
Guaçu

Bar do Povo um balcão de histórias – VI

by Guaçu Piteri

Religião e Política 

Aos sábados à tarde, quando a barbearia era mais frequentada, Honório discorria a respeito de religião e política. Ao final do discurso, sempre atacava o catolicismo. Eu como católico, me sentia ofendido e revoltado.

Lembro-me bem do argumento que me deixava mais perplexo. Aludindo a um sociólogo alemão, de renome, apressava-se em dividir o mundo cristão em dois pólos: de um lado os países protestantes que eram desenvolvidos; do outro, os católicos, atrasados. Formulada a relação de causa e efeito entre a variável independente —religião— e a dependente —desenvolvimento econômico–– citava alguns exemplos convincentes. Na Europa, a guisa de referência, destacava os países protestantes, de um lado, e os católicos do outro. Citava sempre, entre os primeiros, a Inglaterra e a Alemanha, e entre os últimos, a Espanha de Franco e Portugal de Salazar. Nem sequer fazia a ressalva de que os países da Península Ibérica estavam mergulhados nas mais retrógradas ditaduras fascistas.

Mas não era só. Na América, repetia-se o fenômeno. Estados Unidos e Canadá ao norte do Rio Grande, em contraste com a América Latina. Também sob esse aspecto não se lembrava de mencionar Quebec, província canadense católica de origem francesa. Mas sua conclusão era definitiva. Quem poderia duvidar da superioridade da cultura anglo-saxônica de tradição religiosa, fundamentada no “protestantismo”?

Eu, que já me sentia ofendido nos meus brios de católico, tinha agora que suportar a humilhação da inferioridade da minha cultura.

Minha vontade era reagir. Queria responder que há culturas diferentes, mas o conceito largamente difundido de que umas são superiores e outras inferiores é refutado pela ciência. Quanto ao desenvolvimento econômico e ao progresso social, eu pretendia contestar enfatizando que há países de maioria católica, como a França, a Bélgica, a Itália e tantos outros que são ricos, socialmente avançados e tecnologicamente desenvolvidos. Desejava, por fim, acrescentar que as teorias reducionistas não encontravam fundamento na ciência. A vida social é muito complexa para ser interpretada à luz de uma única variável ou mesmo de apenas uma categoria delas. Somente a abordagem multicausal é aceita como fonte científica do estudo da sociedade.

Mas eu —pobre de mim— de onde iria tirar, nessa época, argumentos e coragem necessários para me manifestar em legítima defesa de minha herança latina e de minha religião católica.

Com o tempo, com muita leitura e muito estudo, cheguei ao alcance de compreender que as idéias, enfaticamente expostas pelo barbeiro Honório vertiam da interpretação superficial e reducionista do clássico de Max Weber “A Ética do Protestantismo e o Espírito do Capitalismo”. O incentivo à poupança com a condenação do consumismo; a crença no sucesso pessoal e na competição; a dedicação ao trabalho como fonte de salvação continuam sendo os valores da moral calvinista, associados ao desempenho da burguesia nos primórdios do capitalismo. Entretanto, esse conjunto de valores não explica, em sua amplitude e profundidade, o todo complexo das relações sociais, econômicas e culturais da sociedade.

No entanto, apesar dessas contrariedades, eu devotava ao velho barbeiro sincera admiração e, nos horários em que não havia fregueses em sua barbearia, eu me aproximava para ouvir seus conselhos a respeito da importância da educação e da honestidade nas relações interpessoais. Suas sábias lições me serviam de inspiração para prosseguir os estudos e para reforçar a crença nos princípios da solidariedade, da justiça e da ética.

Do livro Sonhar é Preciso – Comunidade e Política nos Tempos da Ditadura; Guaçu Piteri – Edifieo – Osasco

(continua)

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