Artigo de Guaçu Piteri: ‘Bar do Povo’ – cont.

31/05/2015 15:54

Bar do Povo – Um Balcão de histórias – V

by Guaçu Piteri

BARBEIRO HONÓRIO

 Honório veio do Paraná, onde fora vereador e presidente da Câmara em município do norte daquele Estado que, se não me falha a memória, é Londrina. Pelo menos foi essa a impressão que me ficou da leitura de uma pasta de recortes de jornais velhos, amarelados e quebradiços, conservados com especial desvelo e orgulho na principal estante da barbearia. Ao contrário dos amigos com os quais vivia a polemizar, não fumava, não bebia e não encostava o umbigo no balcão do bar. Quando tinha de entrar na padaria para o pão e o leite, passava ao largo da seção de bebidas e de cigarros, evitando conversar com os fregueses. Preservava, assim, sua condição de evangélico convicto e praticante. […]

Honório, que nunca foi visto sem uma velha gravata preta pendurada no pescoço era, no geral, polido, calado e discreto. Quando, porém, não lhe agradava a conversa punha-se agressivo e hostil. Às vezes manifestava seu descontentamento reagindo com ultrajante neutralidade. Situava-se acima e distante dos interlocutores e das versões mostrando indiferença em relação ao que se passava ao seu redor. Nessas ocasiões, ao ser censurado pela arrogância e falta de urbanidade, respondia que essas eram as únicas formas de evitar assuntos que o aborreciam — como futebol e mexericos — e de se defender da ignorância que formigava por todos os cantos. Preferia menosprezar os interlocutores a ter de se aborrecer em discussões fúteis. Lamentava, mas não ia mudar. Se não tolerava vulgaridades, que infelizmente eram do agrado popular, por que haveria de ser condescendente com as pessoas que se deliciavam em versá-las? Tinha seu mundo e preferia se refugiar nele, a ter que suportar a mediocridade.

Foi na barbearia que, certa tarde, tive uma experiência de que nunca me esqueci. Cheguei descontraído, entrei instalei-me confortavelmente e lhe disse que queria o corte do cabelo no estilo americano. Honório, indignado, desaprovou da ideia e me passou uma descompostura. Em seguida, me fulminou com uma pergunta que não podia ter sido mais expressiva:

— Americano? Por quê?

Confesso que me senti desorientado. Nunca havia imaginado ser necessário justificar a preferência. Não tinha a menor noção sobre a ideologia subjacente ao tipo de corte de cabelo. Sem saber o que responder, ocorreu-me dizer que minha mãe queria assim. Não podia haver melhor desculpa, pensei. Não sabia por que, mas, talvez, a mãe entendesse que era mais econômico. Pelo menos deveria demorar mais para o cabelo crescer.

—Por isso não, menino. Eu corto seu cabelo de graça, mas há de ser “cheio”, insistiu irredutível, o barbeiro.

— Mas a mãe não gosta…

— Pois vai gostar. Quando lhe for esclarecido que é dever de todo bom brasileiro resistir a essa perniciosa invasão “ianque” em nossa cultura, dona Alice vai me dar razão.

Tendo decidido como seria o corte do meu cabelo, Honório desviou o rumo da conversa e alterou o tom da voz que, de severa, passou a paternal:

— Agora, diga lá. Como vai nos estudos?

— Bem!… Quero dizer, vou indo —respondi— emburrado.

— Trate de estudar, menino, pois não há erva mais daninha, na terra, do que a ignorância. Você sabe o quanto eu discordo das idéias do Jaime, esse moço pretensioso que, não sei por que motivo, é conhecido pelo apelido de Engole Faca. Em minha opinião, é um desmiolado, mas não lhe nego razão quando repete que “a ignorância é a mãe de todo atrevimento”. Eu, pelo menos, penso assim… Ainda outro dia – prosseguiu o barbeiro demonstrando certa irritação – apareceu aqui um freguês que desandou a reclamar do tempo. Tanto protestou e se enrolou no tema, que foi preciso interrompê-lo algumas vezes na tentativa de mudar o rumo da conversa. Não houve meio. Desisti, indignado e me calei ignorando a presença inconveniente. O Lino, companheiro do sindicato dos metalúrgicos, você sabe quem é?…

— Sei sim senhor.

— E não ignora que comungamos da mesma ideologia?

— Não senhor, não ignoro. Penso que não.

— Pois bem, quando Lino percebeu que o freguês era metalúrgico como ele, quis falar a respeito das lutas da categoria. Tampouco teve êxito. Para o indivíduo, aí sentado, o clima era mais importante do que os interesses da classe operária. Lino se aborreceu e lhe perguntou se não tinha assunto mais interessante do que discorrer a respeito do tempo. Você sabe o que aconteceu?

— Não sei não senhor…

— Pois saiba, então, menino, que o ignorante se sentiu ofendido, se levantou rapidamente da cadeira e saiu praguejando. Eu não me importo. Perdi o freguês, mas me livrei de um alienado… Alienado e ignorante.

(continua)

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