Antônio Fernandes do Rêgo: ‘A Academia’

30/07/2020 17:59

Antônio Fernandes do Rêgo

A Academia

“Lindaiá, ó Lindaiá!

Minha flor de aguaí,

tu nasceste pra me amar

e eu fui feito para ti.”

Assim vivia ele no mundo trocando trovas por cafunés, trocavam carícias a toda hora, ele cego de amor, loucamente apaixonado e ela o correspondia com afeto profundo.

Ele, aedo e trovador. Ela, exímia sambista que havia sido rainha da bateria da escola de samba do seu bairro. Mas não levava mais às passarelas a sua exuberante formosura, nem mais frequentava as rodas de bamba. Dizia que era por própria vontade, mas, Petronio, este dileto companheiro a havia imposto: “Ou eu, ou o carnaval!” E ela afeita à sua consideração, não ia aos barracões nem participava do tríduo carnavalesco. Submetera-se bem à compleição do seu cônjuge que, apesar da boemia, não era mais chegado às festas momescas desde o dia em que teve no meio de um bloco afanada a sua carteira.

Era o mês de fevereiro. Não se chegava a imaginar qual a razão, mas ela se mostrava meio triste e enfadonha naqueles dias.

Logo ela que sempre o acompanhava tão faceira aos festivais lá, da agremiação e especialmente às sextas-feiras, quando da apresentação de repentistas, trovadores, cantores e cantadores.

Era uma academia de artes da qual ele era membro e onde declamava os seus poemas de amor, cantava loas à sua musa predileta.

Havia chegado a sexta-feira gorda e nesta noite ela não ia acompanhá-lo ao costumeiro festival que ela tanto alegrava. Desculpara-se por uma enxaqueca.

“Não há problema, minha “Pitchula”, vou só, mas voltarei logo”, confortou-a e para descontrair ainda contou algumas piadinhas.

Foi… E terminadas as apresentações, retornou para a sua cabana. Qual foi a sua surpresa ao encontrá-la vazia. Abandonada qual” uma lata de cerveja num piquenique de escoteiros.

Percorreu todos os cômodos e não encontrou a sua cara metade.

Pensativo lançou a vista ao vaso sobre o bufê e viu que de uma flor branca pendia-se um bilhete que dizia:

            “Querido,

           Estou partindo, amor, e sei que te parto e não perguntes porque parto, mas te digo que  parto de coração partido.  Adeus amor.

           Lindaiá.”    

                             

“Não acredito!”… Resmungou. (Devia estar com saudade das patuscadas e dos préstitos carnavalescos) — Cismou.

Lançou-se à sua procura. Por quatro dias e cinco noites, indagou pelos quatro cantos de seu bairro, vasculhou blocos e escolas de samba, mas não encontrou sequer um rastro dela.

Volta para casa, e à noite, debruçando-se sobre o desolado leito, levanta o travesseiro, ao lado e viu um papel amassado. Abriu, era uma carta que o deixou estupefato nestas linhas amarrotadas:

 

         “Lembras-te, Lindaiá, daquele dia?…

Dos carnavais desta vida, só um que me deixou tão triste: Foi quando no asfalto, tu escorregaste e caíste. Tu deixaste a pista, e eu mesmo em pé fiquei caído.

Deixaste o carnaval, e mais duro ainda para mim depois, foi a tua partida.

Quando eu mais te quis, tu também me abandonaste.

Era o dia da caça, foste para o final da lista naquele certame.

Não faz mal, hoje te convido, meu ex-amor, para lavar a tua alma, imprimindo na Avenida o nosso maior carnaval. Será o dia do caçador, ficas comigo e desta vez ganharemos na raça.

Espero-te no Barracão.

 

Jacinto”

 

Veio saber depois que aquela, que fora sua alma gêmea havia desfilado na Avenida escondida numa fantasia, que aquela Escola havia conquistado o troféu. E mais nada soubera.

Andava triste e desiludido, a cabeça lhe doía e os braços lhe pendiam.

Por vezes a melancolia em lágrimas amargas lhe escorria pelo rosto. Dos sonhos e das fantasias que criara, de tudo só lhe restara um amargo despertar e o peito triste a soluçar.

Agora, uma elegia forjava de cada história e levava para a Academia.

Por fim passou a imaginar que havia bebido veneno em vez do elixir do amor, que a maldade se vestira de amor só para lhe machucar.

O tempo avançou… e a chaga do seu coração sarou. Resignado, naquele silogeu, passou a compor e recitar só poemas humorísticos, contar causos e anedotas. No seu palco, era feito um saltimbanco. Ninguém conseguia entender como aquele cantador fazia tanta gente sorrir a até mesmo gargalhar.

Porém, um dia, durante uma de suas apresentações aberta ao público, citava um poema de humor e fazia uma de suas estripulias; de repente, na plateia, dois olhos insistentes lhe fitavam… Era aquela ilusão do passado. Ao vê-la, não pode conter, uma gargalhada rouca soprou no ar, e enquanto gargalhava dos seus olhos as lágrimas rolavam.

 

 Antônio Fernandes do Rêgo

aferego@yahoo.com.br

 

 

 

 

 

 

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