Angelo Lourival Ricchetti: Continuação do livro que conta a história de uma família, desde 1400 até 2023. Ficção com base em documentos e narrativas de pessoas reais

05/12/2016 17:15

Angelo Lourival Ricchetti:  Continuação do livro ‘DA ARTE DE SE CRIAR PONTES’ – 11ª PARTE

DÉCIMO PRIMEIRO‘PEDAÇO’ DO ROMANCE DA ARTE DE SE CRIAR PONTES

 

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Essa cabra foi morta a pauladas pela turma dos homens a mando de um político. Eu era contra o governo. Uma sujeira a mais da politicagem.
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(Continuação do vigésimo quarto texto do Uth Ricchetti)
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Em 1945 nascia o nosso quarto filho, Antônio Geraldo.
Nasceu forte, mas antes dos quarenta dias começou a emagrecer e quase ficou pele e osso.
Minha sogra tratou de batizá-lo. Aquilo era doença de macaco, dizia ela. Hoje ele está com 1,70 de altura e forte.
Os meninos tiveram como padrinhos, o Angelo, pelo batizado, minha mãe e meu cunhado Eduardo Alves, na crisma, o José Silva, marido de minha sobrinha Vera Ricchetti Ricci Silva.
Do José Eduardo, Hermínio, meu irmão e a esposa Maria Antonieta Lara Ricchetti, na crisma, Teófilo Lupercio (Tufi).
Da Vera Maria, Angelina Menocchi e o marido Amadeu.
Do Antônio Geraldo, os avós maternos, Bento e Maria Elisa (a Catita) no batismo, na crisma, Noé Pereira representado pelo Sr. Alberto Plese.
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Estou com o Lolou no Facebook conversando sobre o vigésimo terceiro texto do pai dele.
– Você contou uma história diferente sobre a sua irmã Vera Maria, episódio no qual surge uma culpa sua pela quase morte dela. Aqui seu pai diz que foi uma doença que acometeu a menina. Eu quero os fatos verdadeiros e não suas invenções!
– Kainã eu falo, eu conto, o que lembro e meu sentimento de culpa eu carrego comigo. Se meu pai, com a ajuda da minha mãe Lucila conta diferente, nada posso fazer.
– Lolou, será que eles não perceberam como você ficou diferente depois desse episódio?
– Talvez não, talvez fosse algo que resolveram esquecer minha culpa, meu ato de puxar o tapete. Ou pode acontecer que as duas versões estão corretas, realmente ela estava já doente e eu puxei o tapete, mas minha mãe e minha vizinha não repararam no que eu fiz.
– Eu acho estranho também que, quase todos os filhos tenham tido doenças.
– Devia ser questão de época. Não havia postos de saúde públicos e populares, vacinas e outros cuidados com as crianças. Quando havia um problema de saúde tinha que se ir ao Hospital da Santa Casa, mantido pelas pessoas ricas da cidade.
– Outra coisa: Estão aqui todos os seus irmãos já nascidos.
– Menos o Manoel Fernando que nasceu depois.
– Aqui também aparece um episódio de uma perseguição política. Será que ele tinha provas? Será que ele fez denuncias?
– Francamente eu não sei. Também noto que uma certa mãe nega o leite para a Vera Maria e depois conta que essa mulher morreu de câncer.
Lembra que falei que não sei o que é verdade ou mentira, o que é certo ou errado?
Mas eu lembro que meu pai tinha mesmo uma memória prodigiosa! Não sei por que iria inventar essas coisas.
Mas no caso do meu irmão Antonio Geraldo eu lembro que às vezes a cabeça dele parecia ficar inchada. No entanto, depois ele nunca mais ficou doente, que eu saiba e teve uma vida bem agitada, trabalhando sempre. Lembro dele em 2015 casado com Katia Maria Sinkewicz, e vivendo muito bem, muito queridos por seus filhos Karol, Cassio e Danilo.
Chega a Cinthya e me vê falando com o vô Lolou.
– Me deixa falar com ele?
Eu me levanto e ela se senta junto ao notebook.
– Lolou é a Cinthya! Acabo de chegar do encontro do meu amigo Marco Antonio e dos parceiros elaborando o projeto de Itapetininga em busca de ser um Munícipio Saudável!
– Olá Moça. E dai? Está ficando bom?
– Tanto está que um professor da Faculdade da ECA estava acompanhando o trabalho e disse que valeria a pena se a própria USP seguisse por esse caminho de ser saudável! Fiquei maravilhada!
– Mas antes precisa ver se aqui em Itapê dá certo!
Eu resolvo tirar a namorada do papo, pois preciso sair com ela hoje à noite.
– Cinthya, se despeça dele. Nós temos um compromisso agora à noite.
– Lolou vou ter que sair porque vamos assistir ao um filme de Fellini logo mais. Beijos. Até mais.
– Até mais Cinthya.
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Depois de ver mais uma vez Amacord, obra prima do cineasta Federico Fellini, voltamos para o apartamento. Abro o micro e continuo a ler.
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(Vigésimo quinto texto do Uth)
O ultimo filho, Manuel Fernando teve como padrinho de batismo, minha sobrinha Vera Ricchetti Ricci Silva e o marido José Silva, na crisma, o primo dele, Ulisses.
Nascimento de Manuel Fernando foi no dia 16 de junho de 1951. ().
O ultimo filho nasceu na Rua 24 de Fevereiro, hoje Rua Eliseu Teixeira (primo irmão do meu sogro).
Essa casa foi presente de meu irmão Henrique.
O antigo proprietário queria fazer uma desonestidade com esse negocio da casa.
Combinamos que eu daria 20 contos de reis e um mês depois mais dez contos.
Se eu não cumprisse o trato eu perderia a casa e os 20 contos de reis.
O dinheiro era do meu irmão Henrique que morava em São Paulo.
Nos meados do mês, chamei o dono para passar a escritura.
Ele não comparecia, só para o tempo passar e tornar a casa de volta.
A conselho do tabelião Domingos Di Nardi eu depositei o dinheiro em nome do dono.
Ele estava certo de retornar a casa e ficar também com os 20 contos de reis.
Quando venceu o tempo marcado ele apareceu em casa dizendo que eu havia perdido tudo por não ter cumprido o trato.
Mas ele se deu mal porque teve que passar a escritura a força, pois o dinheiro estava depositado antes do vencimento. Mais um que queria me prejudicar.
Voltando à casa que agora era nossa.
Media 30 metros pela frente e 29 metros de fundo. Precisava de uma pequena reforma. Não havia banheiro interno. Era preciso forrar os quartos e a sala.
Não tendo dinheiro para tudo, vendi 12 metros para o João Corsi por 20 contos de reis.
Ficou muito boa a casa e as crianças gostavam dela.
Havia muitas árvores frutíferas
As crianças brincavam alegres no pomar. Fizemos um galinheiro e plantamos milho.
Era uma chacrinha.
Nossos vizinhos, a família Ciuffa do lado de baixo, do lado de cima dona Antonia, que lavava a roupa de nossa casa.
A família Ciuffa até hoje é nossa amiga.
O Sr. Alarico, ótimo amigo e muito me ajudou (com dinheiro) nas horas de aperto. Dona Linda foi uma verdadeira mãe para Lucila na criação dos nossos filhos.
As meninas de Dona Linda estudaram e hoje são professoras.
Nessa casa tivemos dois desgostos com o José Eduardo.
O primeiro foi com um cachorro de um vizinho em frente de nossa casa. Vendiam verduras e José Eduardo fora comprar alface.
O cachorro avançou e mordeu o menino no corpo inteiro. A pior mordida foi perto da veia aorta. Quase matou a criança.
Outro acontecimento foi o José Eduardo querer uma bicicleta e sair pedalando pelo mundo.
Bateu num muro e ficou marcado no rosto.
O amigo do José Eduardo queria vender a bicicleta velha, mas em bom estado.
Desistiu do negócio.
O José Eduardo ficou doente porque queria a bicicleta.
Emprestei dinheiro e comprei uma nova para o Angelo e o José Eduardo andarem.
O tal amigo, com inveja, amoleceu o parafuso da bicicleta e quando José Eduardo foi andar não pode parar mais.
Ai aconteceu o desastre e a batida na cabeça e no rosto. Mais um traidor na família.
Quis vender a bicicleta, mas o Angelo não deixou. A bicicleta estava em boas condições.
Nossa vida corria calma outra vez.
O Angelo e o José Eduardo estavam no Ginásio, a Vera Maria e o Antônio estavam no Grupo Escolar.
A Vera chegou chorando do Grupo porque um cachorro havia mordido sua perna. Eu fiquei louco da vida. Fui falar com o dono do cachorro. Ele simplesmente me falou:
– O senhor pode matar o cachorro.
E foi o que eu fiz.
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Falando com o Lolou sobre o último texto do pai dele, meu bisavô Uth.
– O que achei interessante é como ele usa de esperteza para conseguir resultados esperados.
– Fiquei pensando muito sobre esses textos, Kainã. Já faz tempo que os li e não lembrava mais de muita coisa. Parece que é um retrato de um tempo passado e não encontramos mais referencial hoje em dia.
– Não sei se é um referencia. Vô Lolou, o mundo e as ações que ele descreve bem com suas próprias ações são resultados de escolhas que ele fez, de modo consciente ou não, sobre fatos. Qualquer outra pessoa poderia fazer outras escolhas.
– Você tem razão Kainã. Aliás, você está falando mais com um crítico literário do que um futuro construtor de pontes fisicamente.
Dou uma risada escancarada. De fato eu queria fazer letras e outras faculdades. Acabei me decidindo por Arquitetura. Amo desenhar.
– Kainã, eu percebo uma insistência do meu pai em seus textos para revelar “maldades” feitas contra ele ou alguém da sua família. Sobre o tombo da bicicleta eu lembro bem como chegou bem ferido o meu irmão José Eduardo. Eu sempre admirei o ser de iniciativas que ele era e a coragem com que enfrentava tudo pela sua própria família.
– Você se lembra dos Ciuffa?
– Lembro bem deles, em especial das meninas filhas deles. Eram lindas, morenas, olhos verdes, muito inteligentes.
Mas eu quero ressaltar como meu tio Henrique ajudou meu pai. Pela primeira vez, tínhamos uma casa e um terrenão enorme nosso mesmo. Não alugado.
Em frente de casa morava uma família e havia uma menina de uns 10 anos muito bonita, mais gordinha que minha prima Maria Helena, embora lembrasse muito a minha prima. Eu gostava muito dela e nós brincávamos juntos.
– Foi sua primeira namorada?
– Não tive namoradas senão depois dos 18 anos. Sempre fui muito tímido e medroso, como já falei. Tinha medo de chegar em uma jovem e ser recusado. As namoradas que eu tive a iniciativa foi delas.
Por falar em namorada a minha chegou e vai me avisando que haverá uma apresentação do projeto e eu devo estar lá junto com o meu avô. Aviso isso a ele. Ele não gosta. Acha que está muito velho para viajar. Diz que vai avisar o prefeito e outros para irem. A Cinthya informa a ele o dia, horário e local.
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(Vigésimo sexto texto do Uth Ricchetti)
Após três anos de morarmos em nossa própria casa, vieram os melhoramentos: rede de esgoto, guia e sarjeta e (precisava) fazer a calçada.
Não havia dinheiro pra tanto.
Fui obrigado a vender mais oito metros do terreno e fiz também um empréstimo de uma pessoa que emprestava dinheiro a juros dando a casa como segurança.
Fui obrigado a vender a casa para não perdê-la. Esse emprestador de dinheiro me prejudicou muito.
O empréstimo era de 25 contos de reis no prazo de dois anos, com os juros de dois contos de reis ao mês.
Tudo ia muito bem e com sacrifício.
A Prefeitura, então, atrasou o pagamento dos funcionários e eu pedi ao Argemirio Portes para falar com o senhor do empréstimo.
Pedi um tempo, mas o canalha protestou em cartório.
Nessa ocasião eu estava sendo ameaçado de morrer ou matar.
Eu era socialista, juntamente com o Dr. Waldemar de Godoy e o professor de Português, o Sr. Fábio.
Ganhamos a eleição do grupo que estava no poder e eu era funcionário da Prefeitura que estava na mão deles.
Começaram me perseguir e como eu não queria matar ninguém resolvi ir embora de São Manuel.
Vendi a casa por 85 contos de reis para o Sr. Dario Massarico e mudei para São Paulo.
Fui morar no Alto da Lapa, Rua do Corredor.
Casa alugada.
Pedi licença sem vencimentos para o vice-prefeito que na ocasião substituía o prefeito que era irmão do ex-governador do Estado.
A licença foi negada.
Pedi, pois a demissão e em São Paulo dei nove contos adiantado para poder alugar a casa.
Foi outra sujeira que fizeram comigo. O meu compadre Tufi ficou muito revoltado.
De nada adiantou tudo isso.
Até o Secretário da Prefeitura aprontou contra mim.
Essa turma não gostava de Ricchetti.
O Dr. Waldemar de Godoy e o professor Fabio não me abandonaram. Deram-me um cartão para entregar ao Sr. Jânio Quadros que na ocasião era o governador de São Paulo.
Não usei o cartão.
Chegando a São Paulo sofri mais um desgosto e tive que abandonar a capital.
Soube que o professor Fabio foi perseguido e transferido de São Manuel.
O Dr. Waldemar de Godoy, muito doente e cheio de dividas, mudou-se para São Paulo onde veio a falecer.
Pediu para ser enterrado em São Manuel, terra que muito amava. E até na morte este povo foi ingrato.
O Dr. Waldemar (advogado) era chamado quando era vivo “o pai dos pobres”.
Só alguns amigos mais íntimos e eu estávamos no enterro.
Depois eu falo sobre as boas ações praticadas por ele.
Foi um grande homem.
O Dr. Waldemar de Godoy, o Professor Fabio e eu éramos fichados no Partido Socialista Brasileiro e havia um grupo simpatizante de nossas ideias e que muitos nos ajudavam.
Eram eles: Luís Sicchieira, Artur Campos Leite, o Mazzetto, Nilson Brollo e outros.
O Dr. Waldemar era nosso dirigente. Era o advogado dos pobres, dos amigos e até dos adversários políticos quando procuravam.
Nunca recebia dinheiro e os colonos votavam contra e, ainda assim, ele dava ordens nos armazéns para que os mesmos colonos comprassem.
Tinha um coração de ouro. Que Deus o recompense.
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Recebo um e-mail do Lolou que vou emprestar minha voz para ler para a Cinthya aqui ao meu lado:
– Kainã, nesse texto começa a se desenhar a primeira perda total dos meus pais. Serão três vezes. Depois de você ler o texto seguinte a esse vigésimo quinto, vai ficar mais claro o que eu digo.
Eu sei que haviam várias razões para meu se mudar para São Paulo. Talvez, a mais forte que todos sentíamos muito, eram os tiros que pessoas empregadas por certos políticos, faziam acima do telhado de nossa casa. Como depois da casa começava uma plantação de café, a cidade era cercada por plantações de café, os tiros iam em direção ao cafezal e sendo de noite não acertavam ninguém. Eram mesmo só para aumentar a tensão entre os filiados ao PSB e os dos partidos de direita.
Estávamos em 1954, todo o Brasil ainda em estado de choque pelo suicídio de Getúlio Vargas. Ele havia chegado ao poder por um golpe cívico militar e foi ditador por muitos anos.
Eleito em 1950, a corrupção e os desmandos de auxiliares levaram a um clima de desespero de Vargas. Pretendendo dar um golpe nos que o golpeavam pela imprensa, impedindo futuras manobras, decidiu pelo suicídio, sabendo-se amado por muitos brasileiros, haveria uma forte reação. Mas não houve.
Mesmo pensando nos vários motivos que levaram meu pai a se decidir por mudar para São Paulo, o meu senso de culpa não desaparece.
Eu devia saber que apenas uma casa fora alugada em São Paulo e os amigos de meu pai haviam arrumado um emprego apenas para mim.
Ele não teria chance de emprego. Embora alguns móveis fossem para a casa alugada, tudo o mais que se precisava para se morar em uma capital, uma das maiores cidades do país não foi pensado.
Eu lembro quando fui me despedir do meu amigo Paschoal Di Nardo e ele me informou que eu não podia viver em São Paulo com aquelas roupas pobres. Teria de ter roupa melhor.
Então foi o começo de uma aventura não planejada na qual meu pai, minha mãe, meus irmãos iriam sofrer perdas terríveis.
Paro por aqui. Depois conversamos mais.
Lolou.
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(Vigésimo sexto texto do Uth)
Já estamos em 15 de dezembro de 1.954 e morando na capital (São Paulo).
 A Lucila, o Angelo, o José Eduardo, a Vera Maria, o Antônio Geraldo e o Manuel Fernando foram de trem. Eu fui de caminhão junto com a mudança.
Nessa ida a São Paulo duas famílias nos ajudaram muito, a família de Francisco Borges e a família do Ioiô, este um samanuelense que trabalhava na policia. Começamos nova vida. Eu, sem emprego e responsável por seis pessoas.
O filho do Borges arrumou um emprego para o Angelo na Mesbla onde ele mesmo trabalhava. Recebemos muitas visitas e conselhos de como viver na capital.
O Álvaro, irmão da Lucila (aquele que saiu da casa quando ficamos noivos) ficou muito amigo da gente. Os parentes apareceram, querendo ajudar.
A casa era grande e ficou sobrando um salão de frente para a rua. Pensamos em sublocar. Apareceu um senhor dizendo ser só ele e a mulher. Eram operários e só viriam dormir. Estava alugado o salão.
Estando a me barbear, no dia seguinte, a Lucila correu a me chamar.
– Olha a mudança está chegando.
Não havia camas, só poltronas e eu compreendi que eram ciganos. Haviam pago o salão adiantado. Falei com o senhor que ele nos enganara, mas de nada valeu. Deixaram as poltronas no salão e eu fui arrumar um advogado.
O delegado falou que nada podia fazer. Só eu poderia, amigavelmente, tira-los de lá.
A Lucila ficou muito nervosa e foi para casa do irmão Álvaro com o Antônio e o Fernando.
A Vera estava na casa do Nelito, outro irmão da Lucila.
O Angelo, o José Eduardo e eu ficamos na casa.
Os ciganos tinham um cachorro enorme que só entendia o dialeto deles.
Eu e o Angelo fazíamos a guarda da casa com um rifle de 15 tiros. O Angelo ficava até a meia noite e eu da meia noite até o amanhecer. Os ciganos só iriam embora quando arrumássemos outra casa. Foram duas semanas de martírio e sacrifício.
Eles mesmos arranjaram outra casa e pediram para sair três contos de reis. Era uma nota!
O delegado disse-me para concordar com eles, senão ficariam na casa ainda muitos dias.
Tiraram algumas poltronas, deixando duas lá dentro. Eles também tinham advogados. Então o cigano falou:
– Agora me dê o dinheiro e eu lhe entrego a chave.
Foi o que fiz.
Estávamos livres dos ciganos, mas a dona da casa alegou que no contrato não podíamos sublocar e pediu que desocupássemos a casa.
Assim perdi nove contos no contrato e mais três para o cigano. Moramos um mês nessa casa.
O emprego na Prefeitura de São Paulo demorava a sair e o dinheiro acabando.
Meu cunhado Álvaro possuía duas casas num loteamento em Jarinu, lugar entre Jundiaí e Atibaia.
E assim fomos morar em Jarinu, no loteamento chamado de Nova Trieste.
Mais uma peregrinação.
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Cinthya, no note book dela está falando com o meu vô Lolou.
– O projeto de Itapelinda foi apresentado na Reitoria da USP, muita gente presente, inclusive a própria prefeita.
– Espera ai, Moça, não é muito estardalhaço para pouca coisa? Parece aquela peça de Shakespeare, Muito barulho por nada.
-Lolou não fique se mesquinhando que eu não gosto! Você acha que teria ido o projeto até a Diretoria da USP se valesse pouca coisa?
– Não falo do projeto e sua realização e sim da coisa concreta aqui em Itapê. Estamos muito longe ainda de tudo que terá de acontecer.
– Certo! De qualquer modo você terá de vir até aqui para falar sobre o Município Saudável!
– Já disse para o Kainã que não vou! Que vá o prefeito e outros!
– Nem que tenha de vir amarrado você virá!
E a Cinthya, mal humorada com o Lolou se fazendo de complicado, sai da conversa, sem mais nem menos. Eu aproveito para falar com ele.
– Eu vou buscar você ai, não se preocupe.
– Kainã, essa moça tem hora que é insuportável! Não sei como você aguenta!
– Deixa isso pra lá. Me tira umas dúvidas do texto do seu vô. Quer dizer que vocês todos foram para São Paulo e o dinheiro ia acabando por que apenas você estava empregado? Quanto você recebia?
– Eu era Office boy o quer dizer que era um entregador de pastas, de documentos de um departamento a outro. Estava trabalhando no Departamento de Pessoal e por isso tinha pouco serviço de rua. Ganhava 200 cruzeiros, não lembro bem de moeda desse tempo. Era pouco. Eu almoçava lanche assistindo filme. Fiquei deslumbrado! No centro onde eu trabalhava havia mais de 10 cinemas e alguns passavam filmes de arte do cinema europeu. Enquanto o filme passava eu me alimentava.
Outra coisa que eu fazia nos cinemas era sentar de tal modo que não visse as legendas nos filme e era obrigado a ouvir e entender aquela forma de Inglês, o que foi bem útil.
– O Inglês que você aprendeu no Ginásio permitia isso.
– Em parte sim, mas quando eu era criança no tempo da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos da América enviava engenheiros para várias partes do mundo possível para verificar onde haveria petróleo para a garantia dos veículos de guerra.
Em São Manuel chegaram duas famílias de engenheiros militares para fazer pesquisa. Tinham filhos quase da minha idade, um pouco mais, e várias vezes brincávamos juntos. Vinham com revistas norte americanas para crianças e aprendi a ler em Inglês com eles e também ensinei Português a eles.
Como o sotaque texano deles era muito forte, quando estava no Ginásio tive muito trabalho para aprender o sotaque ensinado no Brasil pelos professores de Inglês.
Até hoje lembro do cheiro dessas revistas, da cor azul e vermelha da bandeira deles, das histórias dos fundadores daquela nação.
– E essa história de ciganos?
– Foi a segunda vez que meu pai alugava uma parte da nossa casa para estranhos e tínhamos problemas. A primeira vez foi a sublocação, ainda em São Manuel, para uma Igreja de crentes que rezavam em voz alta, gritavam, chorando, pedindo perdão a Deus! O José Eduardo comentava que o Deus deles era surdo… Creio que minha alugava para ajudar na renda da família e no caso de alugar para os ciganos para economizar o dinheiro que ele trouxe de São Manuel e já estava acabando.
– Ele conta que foram morar em uma casa…
– Não era bem uma “casa” e sim um quarto, sala, cozinha, feito de um material altamente degradável de um loteamento entre Judiai e Atibaia. Não puderam levar móveis e sim a roupa do corpo e algumas coisas.
– Você diz: “eles foram”. Você não foi?
– Não fui mesmo. Tinha emprego e meu pai arrumou que eu fosse morar na Vila Clementino, com minha tia Linda e seus filhos. Kainã, nessa aventura para a capital do Estado, embora não tivesse nem quinze anos, eu já era obrigado a ser um adulto em uma cidade com mais de cinco milhões de habitantes.
– Você era um adolescente, isso sim. Brincando de ser adulto.
– Muda isso de brincadeira para uma verdadeira tragédia, pois tinha obrigações, pouco dinheiro de salário, não podia gastar mais do que recebia. Se para o meu pai e minha mãe e irmãos pequenos foi a primeira vez que perderam tudo, tudo mesmo e tinham de começar do nada, para mim foi o começo de minha vida solitária. Logo fiz algo que chateava minha tia Linda, ela que foi viúva e teve que sustentar sozinha todos os seus filhos, administrava tudo com mão de ferro.
– O que houve entre ela e você? Pode contar?
– Posso e você vai compreender bem. Ela comprava uma lata de doce sírio para todos comerem em uma semana. No entanto eu esperava todos dormirem e assaltava a geladeira. O doce começou a sumir rapidamente. Ela descobriu e tive de deixar minha cama debaixo da escada que levava ao segundo andar, ouvindo o bonde passar e ir morar em uma pensão para pessoas extremamente pobres no centro velho de São Paulo.
– Depois você me conta mais. Agora preciso estudar. Um beijo vô.
– Outro.
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(Vigésimo oitavo texto do Uth Ricchetti).
Na véspera do carnaval mudamos pra lá. Eu e meu cunhado Álvaro fomos com a mudança.
No dia seguinte chegaram a Lucila, o Antônio e o Fernando e a família do meu cunhado Álvaro. Foram de automóvel.
Passamos o carnaval juntos e o Álvaro e a família voltaram para São Paulo num dia chuvoso.
O Angelo e o José Eduardo ficaram em São Paulo e a Vera Maria também ficou com outro cunhado, o Nelito (Manuel).
Começamos uma vida no campo longe da vila. Resolvi criar galinhas, queria ter uma granja. O Sr. Zambotto, morador na vila, tinha uma granja. Eu e o Antônio fomos comprar umas galinhas. Compramos 10, 5 Rodes e cinco Carijós. Compramos de outro homem 10 galinhas Legorne.
Depois comprei do Sr. Carmelo uma égua toda branca chamada Primavera. A égua custou um conto de reis. Vinha já com arreios.
Estava começando uma vida nova outra vez em Nova Trieste, pertencente à Jarinu, que fora estância de repouso do Imperador D. Pedro II.
Fiquei sem dinheiro com tanta compra. O dinheiro estava no banco em São Paulo.
O Angelo viria trazê-lo, mas com a chuvarada caindo o ônibus não chegava a Jarinu.
A chuva durou uma semana. O sacrifício recomeçou para mim e para a Lucila. Nada ou muito pouco para comer. Para o Antônio e o Fernando, com três anos, havia chocolate em pó, leite, da fazenda do vizinho e também queijo fresco. Os vizinhos eram os Brollo (não conheciam os Brollo de São Manuel) e o Senhor Primo como era chamado.
Foi o meu cunhado Álvaro que me apresentou a esses senhores.
Eu e a Lucila, com medo que a chuva durasse muito, deixamos de comer para não faltar nada para os meninos. Compramos também naquele tempo um casal de galinhas de Angola e elas fugiram. Eu e o Antônio saímos com o rifle para procurá-las e matá-las para poder comer alguma coisa, mas não as encontramos.
Passamos assim uma semana e aguentamos tudo graças a Deus.
Depois desses dias negros, resolvi pedir um favor para o Sr. Jorge Turco.
No sábado a chuva melhorou e eu queria ir a Jundiaí e como não havia dinheiro pedi emprestado do Sr. Jorge Turco, que tomava conta do loteamento, dinheiro para viagem e contei-lhe o ocorrido.
Queria 100 cruzeiros para poder ir para São Paulo buscar o meu dinheiro. Ele ficou muito bravo por eu ter feito tanto sacrifício e me levou a um armazém dizendo:
 – Compre o que precisar e mande por no meu nome.
E emprestou os 100 cruzeiros também. Grande homem! Não me conhecia direito e me ajudou.
Não fui a São Paulo, pois no domingo o Angelo chegou trazendo o dinheiro.
Criamos alma nova e começamos a acreditar na vida nova em Jarinu. Até as danadas das galinhas de Angola voltaram. O Antônio e eu fizemos um coberto para as galinhas. Um homem chamado Juvenal vendia a madeira da qual eu necessitava para o galinheiro.
O Sr. Juvenal possuía um sitio. Tornamos grandes amigos. Arrumou um homem para cobrir um galinheiro com sapé. Levava o Antônio para passear de cavalo. Na sua carroça veio todo o sapé necessário.
Levava-me noutros sítios e assim me apresentou para muita gente.
Fiquei conhecido e fui apresentado até para o Padre José, um grande amigo.
Queria o Padre José fazer uma biblioteca e me convidou, mas os vereadores não deram o prédio para a mesma.
No lugar que ficamos, chamado Nova Trieste, tudo era muito bonito. Muitas montanhas e campos. A Vera Maria e o Antônio subiam até as montanhas e de lá gritavam para a mãe. O eco repetia tudo. Era um divertimento.
Em todo lado havia cobras (cascavel).
 Um caboclo fez orações para nós e disse que elas não iriam fazer nada a todos de casa.
Não sei se foram as rezas ou a proteção de Deus, o fato foi de que nunca as cobras nos fizeram nada. O Antônio andava sempre descalço e não aconteceu perigo nenhum com ele.
O Angelo e o José Eduardo, todos os meses, vinham nos visitar e traziam seus colegas de serviços.
Numa das vezes que vieram, trouxeram a Vera que estava na casa do meu cunhado Nelito.
O Angelo a trouxe num carro táxi. O motorista ficou encantado com os frangos. Levou um bem grande.
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Acabei de receber uma comunicação da Prefeitura de Itapetininga dizendo que estariam vindo para a apresentação do projeto dos estudos e preparados para responder perguntas. Vêm pessoas da sociedade civil, inclusive o Lolou, que bom que ele aceitou vir, do Executivo e do Legislativo Municipal, alguns representantes de entidades.
Não tenho o que saber do vigésimo oitavo texto do Uth. Uma vez o Lolou me contou que seu pai gostava de criar galinhas e sempre renovava as cercas. Chamava Lolou para ajudar e ele dizia estar com dor de cabeça e não ia, continuando a ler livros debaixo das cobertas.
Amanhã, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, a diretoria da USP e da ECA, junto com os alunos que realizaram o projeto de divulgação do Munícipio de Itapelinda Saudável, estarão mostrando o projeto dos alunos a quem for comparecer, além, é claro, dos deputados estaduais, e representantes do Poder Executivo e Judiciário do Estado de São Paulo.
Vou continuar a ler os textos do Uth Ricchetti então.
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(Vigésimo nono texto do Uth)
Contarei agora alguns fatos vividos em Trieste. As casas eram de Duratex.
A Lucila estava na cozinha e viu atravessando o Duratex a cabeça de uma vaca.
Assustou-se, mas logo achou aquilo engraçado. Eram as vacas do fazendeiro Primo. Elas escapavam e vinham comendo tudo até a Duratex das casas.
O Manuel Fernando, com três anos, andava correndo por todos os lugares. Chegou um dia chorando porque dizia:
 – Uma borboleta me mordeu.
Era uma abelha que havia picado o menino. A Duratex era dupla e no meio havia uma criação de abelhas. Colocamos BHC nessa parede de Duratex e as abelhas morreram e o mel ficou imprestável.
O loteamento era grande e muita gente vinha de São Paulo para ver ou comprar alguns lotes. Numa tarde de domingo, uma das visitas ao loteamento acendeu um cigarro e jogou o palito de fósforo ainda aceso no capim seco. Foi aquela fogueira.
O pessoal entrou em seus carros e sumiu. O fogo durou por muitos dias queimando os campos, chegando as faíscas a pular o Rio Atibaia. Durante o dia o fogo ficava quieto, mas a noite com alguma brisa começava tudo de novo.
E nós olhávamos aquilo tudo feito Nero quando mandou incendiar Roma.
Lá havia duas ”Santa Cruz” (cruz na estrada por morte de alguém). Uma antes de nossa casa e a outra depois. O pessoal depois da seis horas da noite não passava por esses lugares. Tinham medo de assombração.
Uma noite o Fernando começou a chorar que queria comer pão. Às onze horas da noite havia pão quente e eu peguei a égua. Primeiro fui à vila para buscar pão. O dono da padaria conversando comigo falou:
 – É melhor o senhor esperar pelo amanhecer.
Eu teimei em voltar logo e então o padeiro disse:
– Pois então vá, mas leve meu revolver.
Eu tinha confiança na égua e um chicote de cabo bastante grosso. Fui embora.
Chegando à primeira Santa Cruz ouvi uma voz dizendo:
– Dá-me a garupa!
E eu respondi:
– Este animal não dá garupa.
A pessoa quis ficar na frente do animal. Então apertei os pés na barriga da égua e ela foi por cima do vulto e eu dei com o cabo do chicote na cabeça do vulto. Logo vi que não era assombração porque encontrei resistência quando o cabo bateu.
No dia seguinte bem cedo, fui à vila e contei o caso ao cabo da policia, que era meu amigo. Demos umas voltas pela vila para ver se encontrávamos a tal assombração
Ao passarmos por um bar vimos um gajo que era vagabundo com um esparadrapo na cabeça. O policial perguntou por que o esparadrapo.
Ele respondeu que havia caído um galho na sua cabeça.
 – O galho, disse o policial:
 – Já sei, foi um cabo de um chicote.
Ele respondeu:
– Não senhor.
Mas no fim confessou que era a assombração da Santa Cruz.
Outro caso que havia se dado numa fazenda do advogado Dr. Plínio. O homem que tomava conta dessa fazenda estava casado com uma bonita mulher, mas começou esse administrador a namorar outra mulher de um sitiante vizinho.
Todas as noites se encontravam. Um dia o marido descobriu tudo e matou a mulher com o machado. Todas as tardes o espírito da mulher vinha até a fazenda do Dr. Plínio.
Eu e a Lucila chegamos a ver essa bela mulher atravessando a estrada.
Nós sempre passeamos até hoje ao entardecer.
Quando anoitecia, escutávamos patadas de cavalo rodeando nossa casa. Abríamos a janela e não víamos nada, mesmo porque nossos cavalos estavam longe no pasto. Era um mistério!
O Antonio ganhou um pintassilgo e levou para a beira do mato para pegar outros.
A bonita floresta do morro ficava cheia de pássaros. Pendurou a gaiola numa arvore perto de um córrego. Ouvimos um chiado. O Antonio achou que fosse outro pintassilgo que estivesse brigando. Mas não era.
Uma cobra pegou o passarinho e o matou. O Antonio correu em casa pegar o rifle. Eu matei a cobra.
À noite o Antonio e a Vera Maria escutaram barulho perto da porta.
Era o guiso da cascavel procurando seu par. Matei essa também.
Tudo corria bem.
Fiquei muito conhecido. Havia muitos mineiros (de Minas Gerais). Ficaram meus amigos.
Um dia, um dos mineiros passando por lá pediu uma xícara de café. Vendo nossa cachorrinha com uma espécie de tosse rouca e falou:
– Eu curo essa doença.
Era garrotilho. Pediu três sabugos e um arame. Preparou um colar e colocou no pescoço da cachorrinha. Ela parou logo de tossir.
Já morávamos havia cinco meses em Nova Trieste.
Havia ainda uns terrenos e umas casas de Duratex para serem vendidas.
O meu cunhado Álvaro teve a má ideia de levar o irmão da mulher dele para comprar uma das casas, perto de onde estávamos.
Nós criávamos as galinhas soltas. O cunhado do Álvaro, Sr. Lafit, começou a fazer um jardim na frente da casa dele. Não havia cercas. Naturalmente as minhas galinhas iam para lá ciscar e acabar com tudo. Levavam (os pintinhos) pedradas da mulher e da família inteira do Sr. Lafit.
Era metido a francês e não gostava de italianos e da descendência dos mesmos. Eu era filho de pai e mãe italianos. Uns pobretões metidos a grã-finos e não tinham nenhuma educação. Nossa vida tornou-se um inferno.
Apoiados pelos filhos do meu cunhado Álvaro faziam os maiores desaforos.
Temendo fazer alguma besteira mudei-me de lá deixando a casa do Álvaro.
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(CONTINUA)
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