Angelo Lourival Ricchetti: Continuação do livro que conta a história de uma família, desde 1400 até 2023. Ficção com base em documentos e narrativas de pessoas reais

05/01/2017 16:06

angelo-a-08-de-agosto-de-2016-1Angelo Ricchetti: ‘DÉCIMO QUARTO E PENÚLTIMO ‘PEDAÇO’ DO ROMANCE DA ARTE DE SE CRIAR PONTES’

 (CONTINUAÇÃO)
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Estamos outra vez em São Paulo (Capital).
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No bairro de São Miguel Paulista, na Vila Rosária, casa nº 5, nosso novo lar.
Em São Miguel, Vera Maria continuou os estudos de Ginásio tirando o certificado de ginásio.
Conheceu um rapaz chamado José Carlos Meneguelli com o qual se casou. Eles têm cinco filhos: Tânia Valéria, José Carlos Filho, Cássia Regina, Ana Cláudia e Elena Lúcia. Já estão mocinhos, vivem bem e felizes.
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Cinthya recebe nova notícia de uma amiga da USP. Ouve atentamente e logo grita, repete “o Marco Antonio?”, de novo “o Marco Antonio?” chora sem parar, não consegue falar mais ao celular, desaba sobre mim, desesperada. Eu a amparo. Não digo nada. Espero ela se recompor.
– Ele está morto. Encontraram o corpo dele.
– Vamos voltar a São Paulo!
Bem rapidamente entramos no carro, tudo muito rápido, nem sabemos o que estamos o que estamos fazendo. Ela chora o tempo todo da viagem. Eu dirijo o mais rápido que posso, apoiando a cabeça de Cinthya com o braço esquerdo. Fomos direto para a sede da USP onde o corpo dele está sendo velado. 
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Procuro saber como foi o que aconteceu. O professor do projeto me conta que o corpo foi achado junto à raia da canoagem com cinco tiros no peito. A polícia está investigando. Não se sabe o móvel do crime.
Na volta para o apartamento tento consolar minha namorada. Mas é tudo em vão. É melhor mesmo que ela chore tudo que puder.
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Depois de uma semana sou informado que um dos vereadores fez um projeto de lei dando o nome de Marco Antonio para uma escola municipal.
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Quero terminar logo a leitura da vida do Uth e Lucila. Quanto mais leio menos entendo porque foi eles escreveram essas “memórias”. Nem sei se posso chamar assim.
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O quarto filho, Antônio Geraldo, nasceu na manhã de 24 de junho de 1945.
Aos dois meses teve uma doença que na linguagem do povo chama-se “doença de macaco”.
Meus sogros levaram logo para a igreja para o batizado pensando na morte próxima do mesmo.
Não morreu.
Cresceu forte e muito levado. Tomou parte com o irmão José Eduardo na lagoa suja, onde levou a primeira sova.
Estudou no Grupo Escolar Dr. Augusto Reis até o 3º ano. Inteligente, mas não gostava de estudar. Queria trabalhar.
Quando mudamos para Jarinú, ele foi um bom companheiro.
Conhecemos em Jarinú, o senhor Juvenal, fazendeiro e o Dr. Plínio, também fazendeiro.
Assim que chegamos comprei uma égua chamada Primavera, muito boa e mansa. A coitada sofria com as suas artes.
O Antônio foi um bom cavaleiro. Nós saímos juntos sempre. A irmã Vera Maria, que montava muito bem, também saía com a gente.
Quando chegamos lá eu o matriculei no Grupo Escolar para terminar os estudos. Ele disse: –
– Pai, pensei que aqui eu não fosse estudar.
Tirou o diploma de 4º ano do Grupo Escolar de Jarinu.
Mudamos para Jundiaí. Em Jundiaí o Antônio fez o 1º ano ginasial, juntamente com a irmã Vera Maria, que estava completando o 3º ano ginasial.
Em Jundiaí, ele corria com o irmão mais velho (José Eduardo) atrás dos balões.
No dia do seu aniversário, (24 de Junho) estando a correr atrás dos balões esbarrou numa cerca de arame farpado e fez um talho numa das pernas. Corri com ele para uma farmácia e lá foi atendido.
Aconteceu que eu ia dar um dinheiro pelo aniversário dele, mas gastei o que tinha no tratamento da perna.
Quando mudamos para São Miguel ele foi jogar num time do Jardim São Vicente. (uma das vilas de São Miguel). Nas jogadas ele era bom. Aparecia sempre como futebolista.
Foi trabalhar na Brasilit, onde o tio (Manuel de Campos Mello), irmão da Lucila, era grande na firma.
Progrediu na seção de vendas e chegou a chefe de vendas.
Conheceu no Jardim São Vicente a primeira esposa, Yolanda.
Tiveram uma filha de nome Vanessa Priscila.
Não combinavam e veio o desquite.
Casado agora com Fátima. Têm dois filhos, Cássio Fernando e Camilo Leandro.
Continua como chefe de vendas em uma outra firma.
O quinto filho, Manuel Fernando. Nasceu no dia 16 de junho à noite.
Foi sempre um menino forte.
Aos três anos seguiu com todos nós para São Paulo e logo depois para Jarinú.
Na casa em que fomos morar, as paredes eram de Duratex e duplas. Entre elas as abelhas construíram as suas casas ou enxames.
Tínhamos acabado de chegar e o menino começou a gritar que as borboletas tinham mordido o seu rosto.
Pensando em algum outro bicho fui com ele ver as borboletas. Eram as abelhas.
Era muito apegado à irmã Vera Maria. Ela mal podia sair só porque o menino ficava chorando até ela voltar.
Mudando para Jundiaí e depois para São Paulo, Manuel Fernando, já maiorzinho, começou a fazer as suas artes.
Arranjou um amiguinho de nome Roberto Baiano.
Brincavam e brigavam muito. O Roberto gostava de esperar as meninas na saída do Grupo e o Manuel Fernando ia junto.
Umas meninas deram queixas ao guarda, dizendo que os meninos estavam importunando.
O guarda correu com eles e disse que se voltassem lá, ia mandar prendê-los.
O Manuel Fernando chorou muito e pediu à mãe que não deixasse o guarda prende-lo.
Conheceu um rapaz chamado João, sobrinho de uma senhora muito boa.
Essa mulher olhou por ele quando fomos para São Manuel (1969).
Era um grande companheiro nas minhas andanças de bicicleta pelas vilas de São Miguel.
Fez o Grupo Escolar e parte do Ginásio em São Miguel, donde saiu para servir no Exército, e completou o Ginásio.
Sempre teve e tem muitos amigos. Muitas namoradas e por fim conheceu a Vilma numa viagem de ônibus e com ela se casou.
Eles têm um casal de filhos: Jean Luciano e a Fernanda. Em São Paulo trabalha com avícolas, são diversas granjas.
Ajuda-nos muito.
Ele e o Angelo tratam dos pais.
O Fernando gosta de trazer a nossa casa sempre bonita. Mandou pintá-la por dentro e por fora.
Aqui terminam as minhas memórias com as bênçãos aos meus filhos, noras, genro, netos e bisnetos.
Fim.
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Cheguei ao fim dos textos do Uth?
Pior que não me veio nenhuma idéia, lendo o texto, sobre o nosso problema do Munícipio Saudável? Será que foi por causa do projeto que li tudo o que o bivô escreveu? Lolou fica sabendo que li todos os textos do pai dele. Agora só poderemos saber mais pelo que ele escrever. Pela imagem vejo Lolou coçar a cabeça:
– Por favor, não me apresse. Se fizer isso não escrevo nada. Não consigo trabalhar sob pressão.
Minha namorada que estava lendo comigo faz uma observação.
– O Sêo Uth resolve terminar tudo que está contando um pouco de repente. Por quê?
Lolou responde que não sabe bem o porquê e também parece que ele faz um resumão final de tudo, dando mais detalhes sobre os filhos.
– Lembra que nós comentamos o modo dele se referir às demais pessoas, filhos ou não, de modo sintético, resumido?
Eu lembro aos dois que os textos terminam em 1986, mas a vida continuou e muito do que ele relatou deve ter se modificado.
Lolou diz que vai mostrar o que aconteceu depois. Mas pede calma.
Eu olho para Cinthya e fazemos caretas para manifestar nosso desagrado na espera do texto do Lolou.
– Sêo Lolou tenho uma curiosidade sobre a vida de seu pai.
– Qual Cinthya?
– Você disse que seu pai e sua mãe perderam tudo que tinham três vezes. Mas não disse como foi a terceira vez.
– Está bem. Trato é trato. Vou contar como foi essa terceira. Vou escrever um texto e deixo para vocês lerem.
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Em meados de 2024 recebemos o vídeo jornal de Itapelinda relatando um acidente, com fotos.
São estas as palavras do áudio do vídeo do motorista do prefeito, sêo Alcides Moraes:
Como sempre faço quando vou viajar com o prefeito Pedro levo ao posto de gasolina para uma revisão rigorosa no veículo oficial. O Cláudio que me atendo pede para esperar um pouco por estar cuidando de uma motocicleta. Tudo bem, espero e observo que são duas pessoas que não conheço. Recebo de volto o carro com o aviso do empregado que está tudo em ordem.
Vou buscar o prefeito. Ele vem, entra e se senta no banco ao lado do meu. Quando começo a fazer funcionar ele diz:
– Espera um pouco esqueci uma pasta com documentos. Sai do carro, entrando na prefeitura.
Bastou sair e percebo pelo retrovisor a motocicleta vindo de encontro ao carro. Percebo que são o motorista e o carona mas este está com um fuzil metralhadora apontada para o carro.
Mais que depressa me livro da direção e me jogo no chão do carro. Os tiros quebram os vidros traseiros do veículo e depois os da vidraça lateral do lado de onde estava o prefeito. Por sorte os cacos me atingem mas causam pequenas feridas.
O prefeito e outras pessoas, assustadas com o barulho vem ver o que acontece.
Sou transportado para uma ambulância depois de contar o que vi.
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O jornalista Maurício termina a noticia dizendo que o caso está sendo apurado pela polícia, porém até o momento da edição do jornal não há ninguém preso.
Fico assustado e a Cinthya mais ainda. Algo errado deve estar com o programa do Município Saudável.
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Falo pelo celular com o vô Lolou e diz que desconfia de criminosos contratados pelas organizações que estão sendo prejudicadas pelo projeto. Ele me informa que está enviando um texto sobre o que a Cinthya havia pedido.
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A seguir um longo relato feito pelo Lolou conforme combinado. Resolvemos chamar de depoimento do Lolou.
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(Primeira parte do depoimento do Lolou)
Vou falar de mim mesmo, o que detesto, mas vou contar a terceira vez que meus pais perderam tudo.
Como vocês já sabem sobre a morte deles vou contar o que aconteceu antes.
Em 1985 meu irmão Manuel Fernando junto com sua esposa Vilma esteve em São Manuel naquela pequena casa de Vila Ipiranga. Encontraram minha mãe largada na cama, muito magra, quase pele e osso. Meu pai Uth tinha feito de tudo para cuidar da casa, fazer comida, limpar os poucos cômodos, lavar as poucas roupas mas ele não enxergava mais bem e então tudo estava muito sujo, cheirando mal.
Fazia alguns dias que minha mãe Lucila tivera um infecção resultando em uma violenta diarreia. Por isso ficou prostrada na cama e meu pai não conseguia médico para vir vê-la. Como era feriado prolongado, os vizinhos que sempre ajudavam não estavam, tinham viajado.
Manoel Fernanda somente pode colocar meu pai sentado e minha mãe deitada no banco de trás e trazê-los para sua casa em São Paulo.
Conseguiu médico e recursos para o tratamento de minha mãe e ficou ela e meu pai hospedado em sua casa.
Os irmãos, todos nós, conversamos o que deveria ser feito. Descartamos eles voltarem para a casa em São Manuel por eles não poderem mais se cuidar. Também foi descartado colocar ambos em uma instituição para idosos.
Haveria então um rodizio entre os irmãos, mesmo que as esposas e esposo não concordassem muito, para cada um cuidar um tempo dos dois.
E assim foi. Cada irmão e esposa cuidava deles. Era, no entanto, um sofrimento, um mal estar por parte da esposa. Elas tinham seus próprios pais para cuidar. No caso da Vera Maria, como filha cuidava melhor, embora também precisasse cuidar do esposo José Carlos que tinha problemas.
Mas todo mundo sabe como pessoas idosas quando são retiradas de suas próprias casas sofrem demais. É como suas raízes fossem ceifadas do local onde viveram e desejam morrer.
Assim, pelos anos que ainda restaram aos dois antes de morrerem, sempre implorando para voltarem para sua casa em São Manuel, foram ficando tristes, abatidos, sem suas coisas, seus costumes, seus amigos, perdendo tudo o que haviam tido antes.
Pela terceira vez, perdiam tudo. Parece que um poder supremo não humano foi retirando tudo de cada um para que morressem, materialmente, mentalmente, espiritualmente, sem nenhum tipo de bem, seja de que natureza fosse para nasceram em outra forma de vida.
Lembro bem quando a Vera Maria me telefonou dizendo que se eu quisesse ver o nosso pai com vida viesse logo. No dia seguinte embarquei e foi até o alto da serra onde era a chacrinha do Zé Carlos. Fomos até o quarto no qual meu pai jazia inerte, sem se mexer. A Vera Maria puxou o lençol que o cobria e não consegui falar nada, a não ser “pronto! Acabou!” e ela me reprimiu falando que ele ouvia tudo. O corpo dele era apenas ossos cobertos por uma pele. Rapidamente me lembrei das fotos dos judeus nos campos de concentração nazista.
Pronto, já falei do que havia prometido. Tudo foi bem pior mas não consigo contar. Sinto-me muito culpado como isso foi tragicamente acontecendo e eu, particularmente, fiz tão pouco para aliviar o sofrimento de ambos.
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Cinthya e eu lemos esse primeiro depoimento, bem sensibilizados. Mas, mesmo assim, pedimos ao Lolou para falar um pouco mais de seus pais.
– Meu pai Uth Ricchetti faleceu em 18 de julho de 2001, aos 90 anos, de insuficiência cardíaca e minha mãe Lucila de Campos Mello Ricchetti faleceu no dia 11 de junho de 2006 aos 91 anos de insuficiência cardíaca. Em uma das fotos que tirei estão eles no sítio do José Carlos e também meu irmão José Eduardo Ricchetti que faleceu no dia 13 de setembro de 2011 aos 70 anos, de insuficiência cardíaca. Foram meus mortos que fui ver. Antes somente havia visto pessoas falecidas que foram a minha sogra Nori e o sêo Helio, ambos, pais da minha esposa Maria Julia. Sem a ajuda financeira da Professora Nory eu já teria morrido com pedra na vesícula e sem a ajuda de supervisão e da venda de um apartamento do seu Helio nós não teríamos esta casa para morar. Agora vou descansar.
Mas Cinthya insiste que ele fale mais sobre eles mesmo. Vô Lolou percebe que não conseguirá escapar desse assédio chinês:
– Vou tomar um café e depois continuo.
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 (Segunda parte do depoimento do Lolou)
Nasci no dia 19 de novembro de 1939 quando Hitler já havia invadido a Polônia, com sua invenção infernal, a “blitzkrieg”. Eram tropas se deslocando rapidamente, sem parar para fazer trincheiras, pegando de surpresa todos e tudo. Usam uma força total com todos os recursos em alta velocidade, sendo a surpresa o fator decisivo para não haver contra ofensiva a esses ataques.
Fora esse acontecimento lamentável lembro outro bem brasileiro: Nesse dia 19 de novembro foi estabelecido que também fosse o “Dia Nacional da Bandeira Brasileira”. Por isso não posso ver uma bandeira nossa tremulando ao vento no céu do Brasil (desculpe a frase feita, mas esta combina bem aqui).
Minha mãe Lucila me contou que o irmão dela, o Nelito (Manuel de Campos Mello) ao me ver no bercinho, sacudindo pernas e braços, pegou um toco de lápis e colocou em minha mão dizendo:
– Esse é para você escrever muita música como seu vô, o maestro, Angelo Ricchetti, entendido?
Claro que não entendi nada e só fiquei sabendo por minha mãe. Esse meu tio foi gerente de uma grande multinacional em São Paulo e foi quem ajudou meu irmão Antonio Geraldo a se tornar um vendedor extraordinário.
Seguia o ano de 1939. Na vitrine da Casa Richetti, o pintor Juca Canella expunha retrato a óleo do saudoso Dr. Abílio Gomes, encomendado por um grupo de amigos do mesmo. Também o jovem pintor são-manuelense, Henrique Di Lello, expunha ali duas telas representando duas paisagens “cuja perfeição tem sido muito apreciada por quantos admiram a bela arte”.
 Naquele mesmo ano do meu nascimento, em julho de 1939, foi inaugurada a PRI-6, Rádio Clube de São Manuel. Minha mãe Lucila me contou que foi solicitada à população a doação de discos. Meu pai levou um deles com a música “Minha linda normalista”, em homenagem à minha mãe. Quando criança eu cantava muito essa música e sonhava ser locutor dessa rádio, o que nunca consegui.
“Minha linda normalista” era cantada por Nelson Gonçalves, cantor das multidões, como era chamado, preferido de minha mãe. Lembro quando estava na sala e a Radio anunciou a morte dele em acidente de carro, minha mãe arrumando as camas no quarto fez de tudo para esconder e barrar as lágrimas. Veja uma parte da letra:
Vestida de azul e branco
Trazendo um sorriso franco
No rostinho encantador
Minha linda normalista
Rapidamente conquista
Meu coração sem amor
Mas, a normalista linda
Não pode casar ainda
Só depois que se formar…
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Em 1954 terminei o Ginásio em São Manuel. Até então não pensava no que fazer mas certamente não seria naquela pequena cidade. Ela encolhera depois que o café sumiu. Lembro que nossa casa era na última rua de São Manuel e logo se estava na estrada para sair da cidade. Muitas vezes me peguei desenhando uma planta com ruas e praças que continuariam a ampliar a cidade. Será que desejava ser arquiteto e nem sabia o que era isso?
O que me lembro bem é que não queria ficar mais lá. Havia ido a São Paulo junto com os colegas das escolas pelo Campeonato Estadual dos jovens atletas. Em 1954, havia muita festa em local especialmente preparado para IV Centenário da cidade. Era um parque imenso, Parque do Ibirapuera, com obras do genial Oscar Niemeyer. A música Quarto Centenário, de Mario Zan, vencedor do concurso para o hino comemorativo tocava toda hora!
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O Campeonato Colegial não tinha vinculação com a festa do Quarto Centenário de São Paulo.
Eu havia ido como nadador de longa distância e ficamos todos morando no Estádio do Pacaembu. Eu me aventurei sozinho pelas avenidas e ruas, pelas praças da cidade grande e amei andar de bonde, de ônibus, a pé. Uma das aventuras que não fiquei contente e nem o técnico foi escalar, depois do toque de dormir, 22 horas, a porta traseira do Estádio para assistir às festas no Parque Ibirapuera. Paguei um preço bem caro: fiz a prova de natação pessimamente devido à noitada fora. Cheguei em último lugar.
De fato sempre fui um fracassado desde criança, até quanto aos esportes. Fui goleiro, mas não crescia. Como nadador minha carreira foi bem curta.
Nunca tive tanta liberdade em minha vida antes. Iria morar lá custe o que custasse. Amei a cidade, os bondes, as pessoas, os ônibus urbanos, as avenidas, as ruas, as praças.
Então quase ao final do ano, em certa noite, em casa falei para meus pais que estava indo para São Paulo. Os dois ficaram abismados e não sabiam o que dizer. Minha mãe perguntou por que.
– Quero ser marinheiro e lá tem curso para isso!
– Mas filho como vai viver lá? Sozinho? Sem nós? Sem dinheiro, emprego, sem ninguém?
Ela não terminou de falar pois veio um choro sentido. Meu pai reagiu rápido.
– Deixa de bobagem! Não vai e pronto! Vamos ficar todos juntos sempre!
Então foi a minha hora de chorar. Mas não dei isso gostinho a eles. Segurei e fui para a rua. Havia uma procissão e fiquei bem no fim dela e o choro veio devagarinho. Ninguém notou.
Depois fui pego de surpresa quando meu pai anunciou que estávamos indo para São Paulo e disse para mim que eu iria trabalhar em uma grande loja, a Mesbla.
Essa ida da família à São Paulo sempre me fez sentir culpado de tudo de ruim que aconteceu: meu pai não conseguiu emprego, meus irmãos maiores, fomos entregues a familiares, os menores foram morar longe de tudo e nenhum deles, a não ser eu, puderam ser graduados em alguma faculdade. Tenho muito remorsos dessa chantagem que fiz com meus pais.
E assim foi. Não deu nada certo para meus pais. Fiquei em São Paulo com minha tia Linda. Sempre trabalhando na Mesbla e depois morando por conta própria em pensões, pequenos apartamentos, com meu irmão Manuel Fernando um tempo em um prédio que ele tomava conta.
Amava São Paulo, amava os cinemas, os filmes, o Cine Clube Bandeirantes.
Surgiu a primeira Escola de Cinema por iniciativa do dono dos Diários Associados, Assis Chateaubriand. Eu me inscrevi e passei nos testes e entrevistas. Passei a frequentar as aulas.
Em uma dela uma senhora japonesa que também fazia o curso me convidou para ser ator da companhia de teatro dela. Fui fazer o papel de um embaixador norte americano na capital do Japão.
Gostei da ideia de já fazer teatro e sai do curso de cinema. Por mim, ainda ia demorar muito para aquele curso me levar a fazer filmes.
Trabalhava na Mesbla durante o dia e a noite fazia os ensaios para as peças teatrais.
Conheci os atores e atrizes de renome no meio teatral. Passei a fazer parte de um grupo que ia fazer apresentações pelo interior do Estado de São Paulo.
Larguei do emprego da Mesbla para me dedicar ao teatro. Voltara a morar com meus pais na zona oeste da cidade de São Paulo.
Nessa viagem a Minas Gerais, depois São Paulo, fomos parar em uma cidade perto de São Manuel, Jaú. O nosso empresário fugiu com todo o dinheiro e cada um do grupo ia saindo sem levantar suspeitas.
Quando percebi sobrara só eu. A roupa que eu vestia era de um dos personagens que fizera nas peças teatrais.
Escapei sem nenhum dinheiro e fui até a empresa de ônibus e pedi para ir a São Manuel e lá meu tio Hermínio iria pagar. Como o conheciam aceitaram.
Cheguei à Casa Ricchetti, sujo, com roupas amassadas, muito triste e sem vontade de explicar.
Meu tio logo telefonou para os irmãos, meus tios dizendo que isso não podia continuar. Escutei-o falando alto no telefone:
– Nenhum Ricchetti vai viver assim! Teatro é o pior local que possa existir. Há muito tempo que é tudo de ruim. Mulheres da vida, pederastas, golpistas, tudo de pior da sociedade.
Tanto falou que meu tio Fausto, diretor da Secretaria Estadual da Fazenda informou a meu pai que ele iria dar um jeito na minha vida.
Deixa-me explicar sobre o meu tio Fausto para você compreender bem o que aconteceu.
Ele era uma pessoa importante no Governo Paulista.
Sem emprego, por indicação de minha mãe a um tio rico fui aceito a trabalhar em uma agência de banco e acabei rapidamente aprendendo as várias tarefas. Depois fui a uma Seguradora levar um papel do banco e um dos donos ficou conversando comigo em Inglês e me disse que devia vir trabalhar com ele. Havia gostado de mim.
Mas em menos de um mês na Seguradora meu tio Fausto avisou que eu ia prestar um teste para o cargo de Escriturário Extranumerário, ou seja, pago com verba extra no orçamento.
Fiz de tudo para errar e não ser funcionário público. Mas não adiantou pois o teste era somente proforma, eu já estava contratado.
Trabalhei muito tempo como escriturário e a noite fazendo teatro escondido. Em uma das férias até acabei sendo ajudante de câmera de filmar em um filme que acabou não sendo realizado por falta de dinheiro.
Nesse tempo fui morar com um amigo que era autor de peça, diretor e ator em uma vida nova no sentido que fazia tudo que se apresentasse para ajudar nos gastos do apartamento.
Continuava recebendo o pequeno salário de escriturário, mas complementava indo trabalhar em pequenos papeis no teatro, nas televisões, que ainda tudo era ao vivo, não havia gravação ainda, e ainda em circos, nas peças de teatro de picadeiro. Com esses extras podíamos sobreviver. Porém o mais importante era eu ganhar uma bagagem muito grande nessa arte.
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Converso com o Lolou pela Internet.
– Você nasceu quando começou a Segunda Guerra Mundial. Naquele tempo em São Manuel do que você lembra?
– Sabe? Eu não sou como meu pai com aquela memória privilegiada. Não tenho muitas lembranças e a respeito de nomes de pessoas sou péssimo. Por isso não vou citar muitos nomes.
– Mas o que lhe marcou nesse tempo da Guerra?
– O que mais me marcou foram as aulas de catecismo dadas pelas freiras italianas. E os filmes. Porque no Jardim da Infância, como era chamado o local que as crianças ficavam até os sete anos de idade para os pais trabalharem, os padres tinham projetor de cinema e filmes trazidos da Italia. Eram filmes, em preto e branco, já falados e cantados. Lembro-me de um que se chamava “Ao telefone” no qual um cantor lírico o barítono Gino Beck cantava “La strada del bosco”. Desde cedo passei a amar o cinema.
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(Terceira parte do depoimento do Lolou)
Na Secretaria da Fazenda conheci a moça por quem me apaixonei, a Munira Bechara. Tanta paixão não somente estava acabando comigo, como também com ela, com os colegas e chefe de trabalho e para me “curar” foi prestar vestibular na Fundação Getúlio Vargas para o curso de Administração Pública.
Já havia feito o que se chamava “Curso de Madureza” no qual o aluno estudava as matérias por sua conta e depois prestava exames e assim conseguia o necessário para curso universitário.
O Governo Paulista pagava o meu salário, mas me deixava livre para o estudo. Pagava também o curso de quatro anos, com algumas exigência como o meu desemprenho escolar.
Lá foi possível ir deixando apenas na memória a minha paixão por essa moça. Vivia na Faculdade, fiz grandes amigos, tanto entre os colegas alunos como com os professores.
Impossível eu poder citar todos ou alguns desses colegas e amigos. Foram muitos. Estão em minhas lembranças e morrerão comigo.
A minha turma era muito unida e todos se conheciam muito pois cada um de nós visitava a casa do outro. Todos eles foram conhecer a Casa Ricchetti em São Manuel. Nessa época meu pai voltara a morar lá.
Para se ter uma idéia, mesmo depois de mais de dez anos de formados ainda nos encontrávamos uma vez ao ano para comemorar nossa amizade. Não vou citar alguns nomes, pois são mais de quarenta e seria injusto com os demais.
Porém, para aguentar a separação forçada de Munira eu passei a usar bebida alcoólica.
Já havia experimentado o álcool quando uma certa noite, na saída do serviço no prédio da Secretaria da Fazenda faltou energia no prédio. Ficamos presos por duas horas e pouco em um elevador lotado, sem ar, com muito medo de morrer. Quando os bombeiros começaram o resgate, sabendo que a energia podia voltar a qualquer instante, eles abriram uma fresta junto a dois andares e ficavam mandando um de cada vez pular fora do elevador.
Saindo de lá indo pegar o trem de subúrbio para São Miguel Paulista parei no primeiro boteco, pedi para encher um copo de pinga e engoli aquilo de uma vez só.
O resultado foi crescer um medo pânico de locais fechados e, por outro lado, ficar bêbado sempre que via oportunidade. Bastava um dedo de pinga e já não sabia mais de mim. Eu tinha um problema sério que não sabia, a alergia ao álcool, que somente fiquei sabendo quando fiquei internado em um hospital. Depois disso parei de beber.
Quando ficava bastante ferido eu pedia para removido para a casa de minha irmã Vera Maria. Ela me tratava como se fosse o sexto filho dela. Passou a ser uma segunda mãe para mim. Dos ódios da minha infância para com ela para um respeito e uma amizade para com ela, com seu esposo José Carlos Meneguelli e para com os filhos.
A filha mais velha, a Tânia Valeria, se formou em Arquitetura e seu primeiro projeto foi de uma casa para mim, já casado com Maria Julia, em Itapetininga. Antes as casas eram desenhadas por engenheiros. Depois outros arquitetos passaram a desenhar novas casas.
Quem me ajudou na construção foi meu sogro Helio Fernandes, talvez a pessoa de mais bondade que conheci. Casado com a Nori, o pai da Maria Julia foi um esteio para que pudéssemos viver em uma casa nossa, a primeira casa nossa! Esta que até hoje vivemos. A Nori, professora de ensino primário, formada pela antiga e uma das primeiras Escolas Normais do Estado de São Paulo, lutou a vida toda para que seus alunos fossem melhores pessoas.
Assim também é a Maria Julia, professora de história. A mãe dela morreu de câncer. Não passou muito tempo sêo Helio também se foi.
Voltando à criação artística de minha sobrinha Tania Valéria, a minha casa, de qualquer ponto que você estiver, vai sempre ver formas, cores, diferenciadas. Não se repete, varia sempre, conforme muda de ponto de observação e de ambiente dia, meio dia, tarde, noite, verão, inverno…
Quanto ao tipo de claustrofobia que me acometeu, fiz tratamentos, porém sempre tenho um medo pânico de entrar em aviões de carreira. Pior ainda de ser preso algum dia. Essa claustrofobia me faz desejar morrer de uma vez só, de repente. Só de pensar que vou morrer fico mais apavorado ainda. E nem gosto de ficar pensando que estou isolado em uma ilha, sem saída.
Muitíssimo pior ainda é me imaginar preso em um planeta. Porém o pânico maior vem quando começo a pensar como serão os segundos seguintes à minha morte. Tenho a impressão que as religiões servem para nos confortar e nos livrar desse tipo de pensamento, para quem tem fé. Sou católico praticante, sempre vou à missa aos domingos e comungo.
Nessa época já havia me formado e já era funcionário do Governo de São Paulo como assessor técnico junto com alguns colegas da GV.
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A Cinthya está lendo junto comigo o que o Lolou escreve. Ela faz perguntas pelo celular para ele.
– Lolou nessa passagem você conta como morou com seus pais e irmãos na zona leste de São Paulo.
– Isso mesmo. Lembro que foi também um tempo de grande agitação social. Foi quanto eu começava a me dedicar a estabelecer relações com os jovens que viviam no Jardim São Vicente, uma rua separada da Vila Rosária. Fundamos um clube das águias, as jovens, e os leões, os moços. Tínhamos sonhos de construir no espaço do campinho de futebol uma sede em madeira desenhada por um dos jovens, um colombiano.  Nesse bairro moravam muitas pessoas do Japão, da Europa, da América do Sul, vindas em busca de vida melhor do que nos seus países.
Uma pequena moradora, de cinco anos, nascida em Tóquio, Japão me batizou novamente com um nome que, traduzido para o português seria o Moço Louro ou Claro. O nome era “Yukio”. De outra moça, no meu aniversário ganhei um kimono! Eu almoçava ou jantava com eles, nos finais de semana, comidas preparadas em casa pelas mães deles.
Lembro também de pequenos namoricos que não davam certo tanto com uma colombiana, uma neta de italianos, japonesas, como com brasileiras. Lembro-me de uma que era filha de soldado da Polícia Militar, de cor jambo, muito linda. Lembro-me de outra que me levou a conhecer os pais e depois me mostrou um baú com o enxoval para se casar. Desta, fiquei bem distante. Tinha muitos medos e um deles era de me casar.
– E a revolução de 1964? Ou melhor, o golpe civil e militar? Você morava ainda com seus pais?
– Sim, morava com meus pais. Lembro que do alto do prédio da Secretaria da Fazenda onde eu trabalhava, ficamos vendo uma passeata com muitas pessoas marchando na Praça da Sé querendo que houvesse uma tomada do poder pelos militares com medo que viesse o comunismo. A revolução na verdade constou de um golpe de tomada do poder por militares. Mas não quero falar desse tempo. Foi muito doloroso para mim.
Intervenho na conversa dos dois.
– Lolou, já estudamos muito sobre esse movimento. Não precisa contar do que já sabemos. Uma ditadura militar que durou anos e muitas lideranças jovens foram castradas. Muitos anos depois esse triste momento na história do Brasil dificultou e ainda dificulta de certo modo a democracia. Fale apenas alguma passagem sua, pessoal.
– Eu participava naquele momento da Igreja Católica, uma parte que tinha um compromisso sério de se voltar às pessoas de baixa renda. Sempre fui uma pessoa minimalista em questão de bens materiais. Mas haviam falta de bens até para a sobrevivência dos mais pobres. Um amigo meu, filho de pais vindos do Japão, era meu colega nos atos que fazíamos junto com o padre da Paróquia.
Um certo dia ele me parou na frente da minha casa e informou que estava indo para a selva lutar contra a ditadura. Ele veio me convidar. Eu disse que não ia, em parte por sempre ser um medroso, em parte, que foi o que respondi a ele, que violência traz mais violência.
Tempos depois ele foi preso junto com muitos outros jovens. Muitos foram mortos. O grupo a que ele pertencia sequestrou o embaixador da Alemanha, se não me engano, e em troca da libertação dele, exigiu que os militares libertassem os jovens presos. E assim meu amigo acabou sendo mandado para Cuba.
– Pronto. Já falei muito sobre isso. Meu pai nem falou nada, lembra?
– Mas você não se envolveu em nada.
– Não me envolvi mas acabei fazendo algumas coisas. Eu lembro que a gente pedia para o dono de um caminhão que estacionasse ao lado das traves do campo de futebol e deixasse a carroceria aberta para fazermos pequenas peças de teatro que eu inventava. Juntava pessoas e éramos bem rápidos pois logo algum comerciante chamava a polícia por haver jovens comunistas perto do negócio deles.
– Não foi preso então?
– Não fui mas tive de fugir em um certo momento. Eu participava de um grupo de artistas de uma cidade vizinha. Enquanto o pessoal ensaiava teatro, outro músicas, outra pintava, um certo dia escrevi em um papel usado algo que estava na minha cabeça. Escrevi que havia encontrado o Super-Homem em um boteco bebendo pinga, sujo, barbudo, voz empastada e estranhei perguntando: O que é isso Super? Você um herói popular desse jeito? E ele respondia: Pois é, sou Super nada, nem minha namorada me quer mais! Escrito isso achei uma bobagem e amassei e joguei no lixo.
Passou um tempo e quando voltava para casa meu pai me esperou em uma esquina escondido e me entregou um pacote com alguma roupa e disse para eu sumir, Recado do meu amigo padre.
Então, sem saber o que era, eu sumi mesmo. O plano de fuga era de ir a uma cidade, tomar outro ônibus, ir para outra, sem parar, até se ver em um local deserto. Acabei ficando em uma praia ao sul da Bahia. Havia apenas um pequeno bar e algumas moças e rapazes hippies. Fiquei com eles, ajudando no que podia. Fiquei praticamente vivendo de natureza. Ao final de semana vinham famílias mineiras para passar o fim de semana na praia.
Vendíamos a nossa produção e com o dinheiro a gente pagava o bar. A filosofia do grupo era: só existe o presente. Para mim era verdade mesmo. Como ia ter passado se algo ruim havia acontecido? E o futuro? Que futuro seria?
Depois de alguns meses vieram estudantes da Universidade da Bahia me dizendo que o meu “caso” com a ditadura estava superado e que já podia voltar a São Paulo. Voltei.
– Mas afinal o que havia acontecido? Que “caso” foi esse?
– Acontece que uma das moças do grupo de São Caetano, nosso grupo, havia pego o texto amassado e resolvido ler em uma apresentação teatral como se fosse uma poesia. Com nesses festivais havia sempre policial da ditadura escondido, ela foi presa, torturada para explicar o que era aquilo. E também que havia escrito. Eles alegavam que o Super era o General no Poder. Ela nunca contou que fui quem escreveu. Mas os demais colegas do grupo mandaram recado para o padre e ele para meu pai.
Pronto. Agora chega de falar nessas coisas. Leiam o que já escrevi, certo?
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(CONTINUA no ÚLTIMO PEDAÇO)
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