Angelo Lourival Ricchetti: Continuação do livro que conta a história de uma família, desde 1400 até 2023. Ficção com base em documentos e narrativas de pessoas reais

27/12/2016 00:27
Décimo terceiro pedaço do romance Da arte de se criar pontes

Angelo Ricchetti Angelo Lourival Ricchetti:  Continuação do livro ‘DA ARTE DE SE CRIAR PONTES’ – 13ª PARTE

 

DÉCIMO TERCEIRO ‘PEDAÇO’ DO ROMANCE DA ARTE DE SE CRIAR PONTES
 (CONTINUAÇÃO)
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Chegamos são e salvos à casa do vô Lolou.
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Chegamos cansados e logo que abraçamos todos, peço licença eu vou para o quarto descansar. A minha namorada fica lá conversando com o Lolou. Depois vem até o quarto. Deita-se ao meu lado e conta:
– O Lolou queria saber do projeto da USP-ECA e eu…
Eu a interrompo dando um beijo em sua boca.
– Depois você me conta. Estou cansado… Ela fica brava:
– Me deixa terminar! Eu disse a ele que o projeto está pronto, não há nada mais a fazer. É um projeto de comunicação. Ele fica perplexo. Eu continuo dizendo que o desdobramento segue pelos demais departamentos da USP que são especializados em fazer comprovação científica conforme dito na Assembleia Legislativa.
– Tá bom, Cinthya, agora vamos dormir.
Ela se deita e fica abraçada em mim e de repente fico sonhando.
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Estamos nos casando “a la” religião católica em uma Igreja lotada de pessoas. Trocamos anéis quando surge o rosto do Uth reclamando que devia ser pela religião chinesa. Ele quer desmanchar tudo, porém Lucila não permite e ele se cala. Vários rostos de pessoas que devem ser da família dela se apresentam sorridentes, falando. Não entendo nada porque o órgão tocado pelo maestro Angelo soa cada vez mais alto. Mais alto! Procuro pelo rosto do Lolou. Não acho.
Acordo suando muito e olho para Cinthya a meu lado na cama dormindo tranquilamente.
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Na manhã seguinte saímos com o vô Lolou para ver o que as pessoas estão fazendo em seu Município Saudável. Muitas nos reconhecem e vem falar conosco. Outras, com raiva, nos olham e nós nos afastamos, por precaução.
Falo para Lolou sobre as últimas leituras dos textos do Uth.
– Quanto tempo seus pais ficaram em São Miguel Paulista?
– Cerca de 10 a 15 anos. Por quê?
A minha namorada entra na conversa depois de haver ido conversar com as crianças em um parque municipal.
– E nessas mudanças de São Paulo para Trieste, de lá para Jundiai?
– Aproximadamente o ano de 1955.
– Mas isso é muito estranho. Não entendo.
– Moça, não tem nada de estranho. Foi assim mesmo que aconteceu.
Eu olho para Cinthya e entendo o que ela quer dizer.
-Lolou, em um ano só ele contou detalhadamente tudo que acontece e depois, em 10 ou 15 anos conta tudo de modo bem superficial.
– Entendi.
– Não seu por que fez assim?
– Sêo Lolou será que ele quis pular vários acontecimentos? Por falta de memória não foi, pois a dele devia ser incrível.
– Será que ele estava cansado de escrever, ou melhor, de ditar para sua mãe Lucila o que aconteceu?
Vô Lolou pensa um pouco e conclui.
– Vocês devem ter percebido que ele somente conta a sua história. Nem a história de minha mãe ele diz muito. Sobre os filhos é a mesma coisa. Por isso é que eu pensei eu falar um pouco da minha história alguma vez…
– Somente de você? Igual seu pai?  A minha namorada reclama.
– Claro que sim, eu pouco sei o que houve com meus irmãos, com suas famílias. Acho que isso vale também para o pai Uth.
– Tal pai, tal filho, diz minha namorada dando uma das suas gargalhadas chinesas.
Eu completo dizendo que ele tem muito de seu pai. Não pode negar isso.
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Nisso chega o Secretário de Esportes da Prefeitura de Itapelinda e vem nos cumprimentar e falar sobre como estão os projetos na sua área. Raul explica:
– Vocês sabem que não adianta eu conseguir que todos ou quase todos venham se exercitar praticar esportes etc, se essas pessoas também não forem a teatro, cinema, shows, etc. E ainda se não tiverem uma alimentação balanceada de ótima qualidade. Mas eu faço minha parte.
Digo a ele:
– Mas vocês se reúnem e trocam ideias de como cada área está se desenvolvendo?
– Estamos sempre juntos no sábado. Daqui a pouco vou lá na Prefeitura. Além de avaliarmos o que estamos conseguindo, sempre tem lá na reunião, o pessoal das estatísticas e dos testes.
Cinthya quer saber dos testes.
– Cada pessoa do município é avaliada em sua saúde física e mental, em seu desempenho, rumo ao melhor estágio possível de qualidade. Cada um é diferente do outro e não se busca ficarem todos iguais, é claro. Mas cada um vai percebendo como dá certo quando está praticando uma vida saudável. Nós também sabemos a influência positiva quando há os esgotos sanitários, as aguas servidas recuperadas, a geração de energias alternativas. Também há muitas campanhas contra a discriminação, a intolerância quanto a negros, índios, homossexuais, transexuais, bem como luta por melhor atendimento de crianças e jovens e defesa da feminilidade.
Ela sorri bem satisfeita com a explicação. O Raul, por sua vez quer saber como está o projeto na USP-ECA. E conta a ela a evolução de cada área de ciência quanto ao programa de Município Saudável, de acordo com as pesquisas que estão sendo feitas e sugere que os líderes aqui remetam essas avaliações que estão sendo realizadas, pois deve ser de interesse deles.
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O Raul se despede de nós. Lolou olha o celular e diz que é hora do almoço.
Voltando para a casa no Jardim Deise ele diz que vai pensar em escrever um adendo explicando como foram para ele esses 10 a 15 anos que não constam dos textos do seu pai.
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Depois do almoço leio texto do Uth. Não vejo a hora do Lolou escrever a sua parte para entender melhor toda essa história.
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(Trigésimo segundo texto do Uth Ricchetti)
O casarão era formado, na parte superior por duas casas.
Minha irmã Helena e o filho Ulisses tinham se apossado das duas casas e acharam ruim a nossa vinda.
Custou, mas desocuparam a casa que era a parte mais velha e maior das duas.
Estávamos novamente em São Manuel.
Minha irmã Helena e o meu sobrinho Ulisses morando na outra casa e donos da “Casa Ricchetti”.
Na morte do marido da minha irmã Helena houve a separação da firma “Ricchetti e Alves” (eram Hermínio Ricchetti e Eduardo Alves).
O Hermínio ficou com o sitio e depois trocou por um apartamento na Capital onde passou a morar.
No antigo prédio, a parte onde havia a tipografia, foi alugada para o comerciante Rubens Bertozzo.
A Helena, depois da morte do marido, ficou muito nervosa e queria mandar em tudo como se fosse a única herdeira. Tornou-se (a Helena) supermãe, cuidando do filho moço como se fosse uma criança.
A “Casa Ricchetti”, que foi edificada com muito suor por meu pai, terminou num incêndio pavoroso.
Logo depois da morte de papai, o meu irmão Hermínio tomou conta da firma que passou a ser “Viúva Ricchetti e Filhos”.
O jornal “O Movimento” terminou em 1930. Era seu redator meu irmão Fausto Ricchetti. Veio o jornal “A Folha” (1931), mas acabou com a mudança do Fausto para São Paulo.
Eu não pertencia à firma “Viúva Ricchetti e Filhos” porque era menor de idade. A minha parte ficou nos prédios junto com mamãe.
O Hermínio comprou, mais tarde, dos irmãos Henrique, Linda, Fausto e mamãe, as partes deles no comercio.
Mamãe recebeu dez contos de reis pela sua parte e estava guardada com o Hermínio. A parte da Helena, ela entrou como sócia com o marido na firma “Ricchetti e Alves” e terminara a firma “Viúva Ricchetti e Filhos”.
Nessa sociedade eles acabaram com a tipografia e livraria. Colocaram à venda apenas artigos de presentes.
Começou a decadência da firma “Ricchetti”.
Pobre Angelo Ricchetti que tanto lutou para deixar alguma coisa aos descendentes.
No fim a Helena e o filho Ulisses tomavam conta de tudo.
A irmã de Ulisses, chamada Maria Helena, não tomou parte em nada. Não lhe davam satisfação.
De derrocada em derrocada, tudo chegou ao fim, num grande incêndio.
Tomava conta da firma um estranho de nome Mauro, na ocasião. O Ulisses nunca aparecia na firma. A “Casa Ricchetti” virou uma casa de venda de presentes.
Acabou a papelaria. O filho não aparecia para tomar conta da firma porque dormia até tarde.
Foi assim que minha irmã Helena, que nunca trabalhou no comercio, começou a tomar conta da “Casa Ricchetti”.
Os auxiliares eram ótimos empregados. Eram eles: José Monteiro e a Célia. Eram honestos e trabalhadores, pareciam os verdadeiros dono da casa comercial.
O Ulisses foi criado com os maiores luxos e todas as vontades possíveis. Era bom de coração e honesto.
A Helena, a mãe, como supermãe, estragou o filho.
Num dia de carnaval (8-2-1970) ele e mais um amigo, indo para Jaú, viu chegar o seu fim num desastre horrível de carro. O amigo estava bêbado e o carro capotou arrastando meu sobrinho Ulisses.
Foi daí que a mãe e a irmã dele ficaram sabendo que a firma estava com uma divida enorme.
Houve a concordata, pedida pelo meu irmão Hermínio, que ainda constava como sócio da firma.
O meu sobrinho Walter, filho do Fausto, deu vinte contos de reis para ajudar a pagar as dividas. Não sei o que foi feito com esse dinheiro.
Depois de tudo o Hermínio passou a “Casa Ricchetti” ao Mauro de Oliveira.
Não entendi esse negocio.
A Helena ficou sem nada. Nas prateleiras só restavam umas poucas mercadorias por ocasião da morte do Ulisses.
Ai terminou o sonho de papai, suas lutas e sacrifícios para deixar para nossa família, um prédio enorme, casa comercial com tipografia, livraria, papelaria e artigos para presentes.
Firma histórica acabando em cinzas.
O Mauro de Oliveira foi morto por uns maconheiros de Piracicaba logo depois do incêndio da “Casa Ricchetti”.
Hoje existe no local a Caixa Econômica Estadual, que comprou o terreno onde havia a “Casa Ricchetti”.
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Pelo visto uma fortuna se foi. Lemos esse último texto a três: Lolou, Cinthya e eu. Tenho a nítida ideia que as grandes fortunas precisam de pessoas com mão de ferro. Estou pensando nas Indústrias Matarazzo, cujo capital não se extinguiu na divisão entre os parentes, mas cresceu e deu frutos, talvez ainda dê, até hoje em dia.
Lolou não quer comentar nada porque ele diz que no texto seguinte deve haver mais explicações. Inclusive o choque que ele teve quando chegou a São Manuel e não encontrou a Casa Ricchetti. No ônibus que o levava de São Paulo até São Manuel, nas paradas ouviu comentários sobre um grande incêndio, mas nunca poderia imaginar que seria na Casa Ricchetti.
Por sugestão dele resolvemos ler mais um texto do Uth
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(Trigésimo terceiro texto do Uth Ricchetti)
Desse passado eu me recordo de minha sobrinha, Vera Silva, grande mulher, que muito me ajudou a suportar tanto mal. Consolou-nos espiritualmente e materialmente.
A sua morte há poucos anos muito me abalou, mas a sua lembrança permanece para sempre conosco.
Recordo-me do compadre Noé Pereira, padrinho do meu filho Antônio Geraldo. Homem bom honesto e amigo. Na doença de minha filha Vera Maria ele muito me consolou. A menina esteve à morte.
O outro grande homem e compadre também foi o Teófilo Lupercio (Tufi). Brigou e ficou do meu lado quando perseguido pelos políticos que nos governavam.
Foi contra o prefeito local e o vice-prefeito, arriscando a perder o emprego na Prefeitura.
Ambos já falecidos esses dois grandes amigos.
Por ocasião do memorável incêndio da Casa Ricchetti, eles não estavam mais do nosso lado porque já haviam partido deste mundo.
Sentimos até hoje as suas faltas em nossos meios.
Na ocasião do incêndio, a Lucila ficou quase louca de sofrimento.
Tudo virou cinzas.
Memoráveis lembranças se acabaram ali no meio da fogueira.
Os parentes todos (os mortos) que moraram nas casas e os objetos queridos se foram de vez.
Tudo acabou.
Os filhos traziam seus filhos para passarem as férias e todos tinham a sua acomodação. Os netos trepados num banco olhando o trem passar ao longe.
Esse banco foi a única coisa que restou do passado. Hoje ele está na chácara do meu irmão Fausto.
Lembrando o dia do incêndio da Casa Ricchetti, quero agradecer aqui ao Sr. João Evangelista de Mariano, Gerente do Banco Itaú, por ter corrido em nosso socorro salvando-nos do fogo.
À família do Sr. Laudelino Ricci por ter nos acolhidos em sua casa e vestindo-nos, pois na ocasião estávamos de roupa de dormir.
Ao Sr. Argemiro Sampaio por ter me levado até à chácara do Fausto para avisá-lo do incêndio.
Ao Sr. Luis Siccheira, por ter acolhido a família do meu filho José Eduardo (sete pessoas). Estavam dormindo na parte debaixo da casa Ricchetti.
À família Polano por ter dado uma casa para o meu filho José Eduardo morarem até arranjarem outra vez a vida deles.
À minha boa amiga Nena Paraíso e toda a família dela por nos acolher até comprarmos a casa que temos agora.
À família de Dácio Helene por ter socorrido com roupas, colchões e dinheiro ao meu filho José Eduardo.
Aos meus irmãos e aos meus queridos filhos que souberam me ajudar e como consolar no desespero da Lucila.
Foi um pedaço muito duro em minha vida.
Ao Dr. Portela que tratou da Lucila.
Obrigado ao meu filho Angelo. Esse levou um grande choque. Vinha nos visitar e só encontrou ruínas e não sabia de mais nada. Do paradeiro dos pais não sabia.
Estávamos indo para São Paulo, para a casa da nossa filha Vera Maria. Foi o meu irmão Henrique quem nos levou para a Capital.
O Antônio e o Fernando ficaram desesperados.
Meu genro José Carlos quase desmaiou vendo os sogros chegarem sem malas. Não queria acreditar no incêndio.
Foi mais um drama nas nossas vidas.
O que sobrou foi apenas o terreno de esquina, no centro da cidade e foi vendido para a Caixa Econômica que construiu um grande prédio onde funciona a própria Caixa Econômica.
Eu comprei uma casa na Vila Ipiranga, Rua Ademar de Barros, 359, onde estamos morando.
Esta Vila Ipiranga, e outras vilas, estão situadas onde outrora ficava a fazenda do meu sogro Bento de Campos Mello.
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Cinthya recebe uma notícia triste em seu celular. Seu amigo Marco Antonio está sumido de novo. Ela me abraça muito forte. Diz pressentir algo ruim. Tento dizer a ela que logo ele reaparece estará tudo bem. Ela chora.  Conto para o Lolou. Ele fica nervoso, angustiado e se afasta de nós.
Depois volta e me mostra um texto sobre Vera Silva;
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“Vera
Caia à tarde, os pássaros, em minha casa cantavam, eu e minha esposa Lucila estávamos tristes pela doença de nossa sobrinha querida, eis que meu irmão Fausto trouxe-nos a dolorosa notícia do seu falecimento.
De sua despedida deste mundo, foi o baluarte dos pobres, a boa samaritana que com lágrimas nos olhos socorria os necessitados, sem alarde e com sorrisos agradecia as pessoas que a ajudavam na sua missão.
Ainda a vejo com a chuva ou com o sol e o vento, ela com um carrinho de feira tirando o “quilo” com as palavras meigas “Deus lhe pague”.
Todos os anos no portão do cemitério, junto com seu marido José, desde as 6 horas da manhã às 6 horas da tarde, toda sorridente e com palavras meigas, agradecia os que davam esmolas, dizendo: “Um auxílio para os pobres do Asilo”.
Nos fins de ano com novenas de Natal, indo nas casas de pobres ou ricos rezando com devoção para os pobres terem um Natal feliz.
E fazendo essa missão, é que ela apanhou esse mal que mais tarde a levou para os braços da Virgem Santíssima.
Você nos deixou com muitas saudades, nos corações dos pobres, muitas lágrimas nos olhos dos parentes e amigos; para mim não partistes estás presente em meu coração, no coração de tua mãe, de teus irmãos tios e primos.
Lá onde estás, saibas que os teus pobres estão dizendo “Obrigado nossa protetora Vera”.
Beijos Uth.”
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Pergunto a ele por que está me mostrando esse texto.
– Essa é uma carta do meu pai para a sua sobrinha Vera Silva, quando ela faleceu. Foi me enviada por um dos filhos dela, o José Luiz Silva Ricchetti como um exemplo que meu pai tinha para com sua mãe. Ela e o José Silva foram meus padrinhos de batizado. Eu tenho as datas de nascimento deles aqui no meu arquivo:
José Silva, esposo de Vera, em 03/04/1917; Vera Ricci Silva. Em 17/03/1920; filhos: Paulo Sérgio Silva em 18/07/1945; Carlos Roberto Silva, em 21/07/1948 e José Luiz Ricchetti Ricci Silva em 08/10/1952;
– Ainda não entendi por que está me mostrando esse texto agora.
– Tomara que sua namorada não tenha de escrever um texto assim.
– Entendi.
Fico calado um tempo. Depois pergunto se o pai do Lolou era religioso, pelo teor da carta, isso me é evidente.
– Ele se dizia espírita. Minha mãe era católica, embora não pudesse praticar. Eu lembro que eles tinham acima de sua cama um retrato enorme de Jesus curando uma criança nos braços da mãe. Minha mãe agiu como professora a sua vida toda quando aparecia oportunidade. Inclusive chegou a montar uma pequena biblioteca em sua casa na Vila Ipiranga. Lembro também que dos parcos 200 cruzeiros que eu dava por mês, ela separava uma parte para pagar a prestações uma coleção de livros de líderes mundiais. Quando saíram, para sempre, dessa casa, minha mãe me disse que era o presente dela para os futuros netos. Trouxe para cá, imaginando o sacrifício de quem tão pouco e assim mesmo comprara livros para meus netos.
Digo que os pais dele, meu avô Lolou, eram pessoas com muita bondade no coração, assim como o sogro dele, Helio Fernandes, e a sobrinha dele, A Vera Silva.
– Houveram outros além deles de muito bom coração. Mas, você está certo, Kainã, estes foram excepcionais.
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Volto a ler para a minha namorada o texto do Uth para ver se ela esquece um pouco o amigo.
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Os vizinhos muito bons.
A Lucila continuava nervosa, mas com ajuda de todos ia se recuperando.
As meninas de nossa rua muito cooperaram para a saúde de minha mulher. Entre elas a Vera Lucia Alves da Silva, a irmã Sonia Regina e a Márcia Terezinha Fuim, às quais eu agradeço.
Deram as boas vindas com flores e muitas alegrias a nós, novos vizinhos.
Foram verdadeiros anjos na ocasião. Estávamos precisando.
Hoje formando um bloco, todos sentam, à noite, nos bancos, nas cadeiras para um bate papo informal.
São os “amigos da sentação”.
Essas pessoas são: Maria Aparecida Fuim, mãe da Maria Terezinha, Dona Helena Duarte, avó da Márcia, Terezinha Alves da Silva, mãe da Vera Lucia e Sonia Regina, Dona Olímpia Conforti, que veio muito depois morar na Vila Ipiranga, Antoninha, ainda moça com seus seis filhos, Sr. Duarte, marido da Dona Helena, Dona Marina, casada com o senhor João (soldado) de Oliveira.
A Vera Lucia e a Márcia Terezinha, já casadas e com filhinhos, às vezes, vem sentar.
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Cinthya comenta que foi uma nova mudança de endereço. Tem-se a impressão que ele conta sua história de acordo com os locais que se muda e novamente faz um relato minucioso detalhando objetos, pessoas e situações.
Vô Lolou fala sobre esse primeiro andar da Casa Ricchetti. O assoalho era de tábuas, na parte do quarto de sua vó Maria Joana e um quarto de fundos.
– Eu andava por ali sempre com muito medo. Tinha medo dessas tábuas e olhava para baixo, para o quintal e era muito alto. Lembro também desse banco de madeira e como dele podíamos avistar a Estação da Ferrovia Sorocabana, ramal de Botucatu a Bauru. Ficava em uma parte elevada da cidade, no alto do morro.
Mais para o alto ainda desse morro ficava o Cemitério. Em toda a volta da cidade cafezais ocupavam até onde a vista alcançasse. Isso na minha infância e depois juventude. Depois disso, da quebra da Bolsa, os canaviais de açúcar ocuparam os cafezais.
– Pergunto como era essa casa em Vila Ipiranga.
– Por incrível que pareça, essa casa, um quarto, sala, cozinha e banheiro, muito pequenos havia sido a caixa de água da fazenda dos parentes de minha mãe. Tanto que o quarto tinha paredes bem largas e era sempre bem úmido.
Esqueci de dizer sobre o quarto da minha avó italiana. Ela havia trazido da Itália o lavabo e inúmeros objetos usados para as mulheres se banharem e se se perfumarem. Não sei o que foi feito deles. Talvez, como tudo meu que minha mãe guardava na Casa Ricchetti, esses objetos devem ter sido devorados pelas chamas do incêndio.
Pergunto como é a topografia de São Manuel, uma vez que Lolou fala de altos e baixos e eu nunca estive lá.
– São Manuel do Paraiso como era chamado surgiu junto a esse rio, a parte mais baixa da cidade e depois cresceu para o alto do morro para o Cemitério e para o alto do outro morro para a saída da rodovia, ficando o último local da casa do meu pai perto dessa saída.
Cinthya quer a confirmação sobre a segunda vez que meus bisavôs perdem tudo de novo. Lolou confirma e avisa que haverá a terceira vez, mas contada por ele em um outro texto que ainda vai escrever.
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O Secretário Municipal de Saúde de Itapetininga nos procura na casa do Lolou.
– A batalha pela saúde integral dos cidadãos corre um grande risco. Recebi um oficio da Associação dos Médicos do Brasil, juntando um texto oficial do órgão do Governo Federal responsável pela certificação dos alimentos, informando que nenhuma pessoa física ou jurídica pode alterar essa certificação, muito menos uma prefeitura municipal. Lolou pergunta:
– Doutor Adelson, o que isso quer dizer na prática?
– Que implica em ilegalidade para produtos certificados dizer qual faz bem ou faz mal para a saúde das pessoas.
Cinthya entra na conversa:
– Isso significa que não se pode colocar novo rótulo nos produtos para afirmar, como o cigarro e a bebida alcoólica, que o uso rotineiro faz mal para o cidadão?
– Nem precisa ser no produto. Nós temos colocado propaganda junto a quem vende cachorro quente ou fast food que usa carne vermelha alertando sobre o consumo e o mal que faz à saúde. Pelo visto nem isso podemos fazer mais. O risco também é grande quando taxamos os locais onde se vende produtos enlatados.
Eu comento:
– A briga pelo Município Saudável chegou ao Governo Federal e seus órgãos “protetores” dos cidadãos e também irá, sem dúvida, para o Legislativo e para o Judiciário. O cerco está se apertando… Certo Cinthya?
– Enquanto os comparativos que a prefeitura faz mostrando os efeitos nos organismos das pessoas, enquanto as áreas de ciências da USP não demonstraram que isso é verdade, corre-se o risco de todo esse trabalho magnífico feito pelo governo e cidadão de Itapelinda ser posto abaixo pela Justiça.
Ficamos todos em silêncio. O programa de Saúde e tudo mais pode se acabar em nada.
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Vou ler outro texto do Uth. Se ele perdeu tudo por três vezes na vida quem sabe tem alguma dica, algo, para não deixarmos morrer o programa do Município Saudável.
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(Trigésimo quinto texto do Uth Ricchetti)
Agora vou escrever sobre meus filhos. Passagens de suas vidas na infância, na mocidade e até agora quando casados. São muitas saudades.
Angelo, com alguns meses de idade, em uma caixa de madeira embaixo de uma parreira de uvas, em frente de um viveiro de pássaros.
Um dia a Lucila foi trocar o colchão em que ele ficava o dia todo na caixa e encontrou uma grande aranha cabeluda. Foi um milagre! Ele estava ali e não foi picado. Seu anjo da guarda sempre o protegeu.
Andou com um ano e três meses de idade. Quem o ensinou foi minha cunhada freira. É a tia Guida, irmã da minha mulher.
Aos dois anos de idade, quando íamos embarcar para São Paulo, ele ficou no portão esperando o automóvel e desapareceu.
Muito aflito, procuramos pelos vizinhos e nada. Pensamos até em roubo. Fui à Delegacia de Policia. De lá, todas as cidades de perto ajudaram a procurá-lo.
Encontramos o menino, são e salvo, brincando na casa do senhor Amadeu Leonardi.
O tal Sr. Amadeu disse que segurou o Angelo para brincar conosco. Brincadeira de mau gosto. Por esse gesto levou um pito do Senhor Delegado.
Quando ele completou quatro anos encontrou o portão aberto e juntamente com irmão José Eduardo, de quase três anos, foram ver o rio que ficava uns cinco quarteirões de casa.
O portão era trancado a chave, mas aconteceu que a Lucila deixou aberto aquele dia.
Um carroceiro que passava por eles, foi uma curiosidade!
Quiseram andar de carroça e o homem levou os dois sem pensar no mal que estava fazendo.
Mas graças ao meu amigo Benedito Portes, Administrador do Matadouro, reconheceu os meninos e me avisou na Prefeitura.
Outro dia, o Angelo, sem saber de nada, pois era noite escura, ele me disse:
– Cuidado papai ai está uma aranha.
E havia mesmo.
Um dia, estando na sala brincando de correr com o José Eduardo, tropeçou na irmã Vera Maria, que era pequenina, derrubando-a. Ela desmaiou na hora. A Lucila muito aflita gritou:
– Matou!
O Angelo ficou traumatizado com essa palavra.
Não queria saber da irmã.
Só muitos anos depois ficou amigo dela.
Levei a menina debaixo de uma torneira e ela voltou a si.
Sempre bom filho, bom aluno. Tirava boas notas no Grupo e no Ginásio.
Bati muito nele quando as artes apareciam, hoje vejo que foi um erro, eu devia dar conselhos, mas era inexperiente.
Passou a meninice e a mocidade dando gosto a mim e a mãe Lucila.
Hoje está formado em Administração Pública, casado com a Maria Julia Fernandes. Tem dois filhos: um menino e uma menina. O menino é o Leon Francisco e a menina é a Amanda. Cria os filhinhos com amor e conselhos.
É o nosso esteio, agora na velhice. Que Deus o abençoe. É o primeiro filho dos cinco que tivemos. São os nossos tesouros.
O Angelo mora em Itapetininga com a família, cidade grande movimentada e de muito futuro.
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Depois havia uma frase assim:
Fim do 2º Caderno. LCMR.
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Parece que muitos dos fatos já foram abordados pelo bisavô Uth, mas ele repete, não sei por quê. Será que deseja marcar bem esses eventos?
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(Trigésimo sexto texto e final do Uth Ricchetti)
O segundo filho, José Eduardo, nasceu no dia 13 de fevereiro de 1941. Parto natural. Era um menino magro. O tempo era de carnaval.
Não aceitou o leite materno.
Aos quatro meses teve uma disenteria. O leite que tomava vinha de umas cabras que tínhamos no quintal.
Uma delas estava doente e a portuguesa que tirava o leite não percebeu ou por burrice não falou nada para gente.
Aos cinco anos sofreu a crupe. Ficou muito mal, mas aguentou tudo. Continuava magro.
Era e é muito inteligente.
As reinações que fazia eram tantas e levava o Angelo com ele.
Quando fugiram de casa a ideia foi dele.
Não gostava de escuro e combinava com o Angelo para irem ao cinema por causa da companhia do irmão maior.
Por ser muito magro só tomava castigos e o Angelo as surras.
Uma vez ele apanhou porque levou o irmão menor (o Antonio) para nadar numa lagoa suja formada pelas águas das chuvas.
Sendo eu sócio da piscina fiquei muito bravo e bati nele na rua mesmo.
Era trabalhador.
Gostava de passar bem. Não comia arroz e feijão.
Arrumou um carrinho de mão e saia pelas ruas procurando ossos e ferro velho. Vendia tudo e estava sempre com dinheiro para comprar as coisas que tanto gostava de comer.
Aos treze anos sofreu um desastre sério.
Indo comprar verduras na casa que ficava em frente da nossa casa, o cachorro o atacou e quase o matou. Apareceu cheio de sangue. No pescoço havia uma grande dentada.
Outro desastre.
Este foi com a bicicleta.
Um colega do ginásio tirou um parafuso da bicicleta e ele não sabendo disso saiu a pedalar.
Resultado foi de encontro com um muro e chegou desmaiado nos braços de uma vizinha.
Nunca repetiu um ano, nem no Grupo nem no Ginásio e se formou contador.
Casou-se aos dezenove anos. Tem cinco filhos: Estela, casada, com três filhos, José Eduardo Junior, Paulo Rogério, Lucimara e Márcia Andréia.
Ele é vendedor porque gosta desse ramo.
Vera Maria, terceiro dos filhos, a única mulher dos cinco filhos.
Era uma menina viçosa, loira, olhos verdes.
Aos sete meses, quase morreu tomada de forte gastroenterite.
Mudou tanto que quando tornou a ter saúde ficou careca. Os cabelos louros mudaram para pretos escuros e a pele ficou morena clara, os olhos continuaram verdes.
Quem salvou minha filha foi Dona Nena Paraíso.
Ela amamentava a criança de três em três horas.
A Lucila não podia dar os seios porque estava grávida de quatro meses do nosso quarto filho.
Comprei uma cabra para ajudar na amamentação.
Depois do que passou, ela cresceu forte e tomava parte em todas as brincadeiras dos irmãos (Angelo e José Eduardo).
Cursou o grupo Escolar Dr. Augusto Reis, (aqui em São Manuel). Nunca repetiu um ano.
Indo para São Paulo, com toda a família, ela foi morar na casa de Manuel de Campos Mello (irmão da Lucila).
Ficou com o tio porque fui para Jarinú esperando sair o emprego na Prefeitura de São Paulo.
Dias depois o Angelo trouxe a menina para Jarinú. A Vera Maria gostava do lugar. Andava a cavalo e arranjou amigos.
Entre as amigas havia uma de nome Mingas (Domingas). Era uma fazendeira. O café da manhã na fazenda era peixe assado e polenta e a Vera Maria gostava disso.
Em Jarinu não havia Ginásio e ela queria estudar por isso mudamos para Jundiaí. Lá conheci o diretor do Ginásio e ficamos amigos. Em Jundiaí, Vera Maria completou o 1º e o 2º anos ginasial.
Estamos outra vez em São Paulo (Capital).
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(CONTINUA)
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