Angela Fiorenzo: ‘Se eu voltasse no tempo viveria tudo outra vez’

20/10/2020 11:59

Angela Fiorenzo

Se eu voltasse no tempo viveria tudo outra vez

Chovia. Aquela chuvinha fina, que se pecava pelo acinzentado do céu, ‘redimia-se do pecado’ reavivando o verde e as flores, dando nova vida à natureza, cortando delicadamente o silêncio.

O cenário bucólico encantava pela alegria das cores, pelo doce murmúrio das gotas caindo aqui e acolá, algumas tentando se equilibrar nas folhas. Gosto de chuva, mais ainda se posso ficar em casa, quando desperta em mim, de um modo especial, mais intenso, o desejo de ler,  escrever, me aventurar na cozinha, enveredar pelo universo das artes… Difícil, sempre foi e acredito que sempre será, não fazer nada…

Foi assim, olhando pela janela enquanto eu pensava no que eu faria naquela tarde, que Ella me encontrou. Desceu do carro, correu para a porta que já estava aberta, entrou, me abraçou, seu abraço sempre era muito bom – de alguém que sabe e gosta de abraçar. – Tem chá? Ou vamos de vinho??? O tempo está bom para os dois. Trouxe aquelas bolachinhas que eu sei que você não dispensa!!!  Os dois combinam!!!

Sem esperar a resposta, ela era assim , intensa, como já tive oportunidade de contar, sentou-se em sua cadeira favorita, uma poltrona com tecido adamascado fosco que criava um contraponto  interessante com o floral dourado da estampa, e disparou:  – Hoje tenho uma história e tanto pra você!!! Quer ouvir???

Como Ella sabia que eu amava suas histórias, tive apenas tempo para pegar o chá que havia preparado pouco antes da amiga querida chegar. Mais tarde o vinho! Tudo bem pra você? Perguntei.

A postos, depois de servir e entregar a xícara a Ella e tomar a minha entre as mãos, eu disse: muito bem! Ansiosa!!! O que teremos desta vez?

Ella riu como eu nunca havia visto. Seus olhos se iluminaram de tal forma, seu sorriso era a própria felicidade, e pensando na teoria de que o corpo fala, eu tinha diante   mim a mais perfeita imagem do amor. Sem que Ella precisasse dizer nada, eu soube de imediato que  ouviria um dos relatos mais empolgantes que a vida pode nos oferecer quando duas almas se encontram e se amam e se doam e se entregam e vivem de uma forma plena  seus sentimentos, com a simbiose sem igual do  amor e paixão.  Um instante depois estava pronta para começar.

– Esta história teve início 18 anos antes do reencontro. Mas pra chegar lá… muita água, como diz o ditado, passou por debaixo da ponte!!!

Enquanto fazia esse preâmbulo, percebi que Ella segurava sua xícara como um apoio , como se estivesse se ancorando nela por conta das lembranças que, imaginei, rodopiavam qual borboletas em um campo de flores!!!

O início

– Cursávamos a mesma faculdade, em anos diferentes. Nos conhecíamos,  mas não éramos amigos. Conhecidos apenas. Eu sabia quem ele era e vice-versa, pois ambos éramos populares no ambiente acadêmico.  Tínhamos muito em comum, o alto astral, o jeito de viver sorrindo e de bem com a vida, a facilidade para fazermos amigos… O sorriso dele… conquistava. Saltava aos olhos nossa facilidade de comunicação, nossa facilidade para atrair pessoas. Era natural… Espontânea, a melhor palavra.

E assim, sem esforço algum… sem provocarmos uma aproximação nos encontramos.

Ella parou por um instante e me pediu, caso eu fosse contar esta história, que reforçasse esta fala:  – Peço  licença para omitir alguns detalhes, pois como a história não é apenas minha, não me julgo no direito de dar uma identificação maior, pois dependendo do que eu disser,  estarei expondo mais pessoas do que  viriam ao caso neste episódio da minha vida.

Respeitei e me comprometi a transcrever sua fala, como  transcrevo agora.

– Nossa sintonia foi imediata.  Conversávamos muito, ríamos de tudo, a combinação era incrível, mas a um passo dos laços se estreitarem, quando ele demonstrou claramente o desejo de chegar mais,  senti medo. Ele era por demais  requisitado pelas mulheres!!! E gostava delas, não escondia,  esbanjava charme, não que fizesse propositalmente, mas aquele sorriso, sua gentileza, carisma não abriam, na verdade, escancaravam o caminho! Eu não queria ser uma entre todas! Recuei. Ele percebeu.  E assim me mantive por um bom tempo, sem ceder um milímetro. Por outro lado, ele também não desistiu.  Cabo de guerra!!! Kkkkk Na época não pensei nisso, mas era exatamente o que parecia!

Ella parou por um instante e logo descobri porquê.

– Contando isso agora, lembrei  do anel que ele me deu. Ouro e quartzo rosa. Lindo!  Um dia chegou, olhou pra mim, pegou minha mão e colocou uma caixinha nela. Tem um significado, lembrei de você! Senti as mãos dele trêmulas, como se estivesse emocionado… não tenho certeza, ele não era muito dado a demonstrar emoção…  mas acredito que sim!

Abri a delicada caixa de veludo preto e junto ao anel encontrei um cartão com a descrição da pedra e um “amo você!” Desisti de lutar contra mim mesma. Quartzo rosa, eu li: o cristal que vibra amor e harmonia, pedra do amor e da paz… Não precisei ler mais nada!!! O que li era suficiente para meu coração disparar!!! kkk

Começaram a namorar? Perguntei com vontade de saber muito mais, mas me contive assim que Ella respondeu com um SIM, que foi mais do que a lembrança de um amor qualquer!

– Feliz!!! Absolutamente feliz!!! Nunca havia sentido nada igual nos meus 18, 19 anos de vida! Se alguém me desafiasse a provar que a minha era a felicidade maior do mundo, não sei como, mas acredito que eu teria ido em busca de um meio para fazer essa prova. Amor enlouquecedor.  Avassalador!!! E assim continuamos por um bom tempo, não recordo quanto. Nos amávamos, nos curtíamos, ele sempre queria mais e eu sempre  me mantendo fiel  à educação recebida.

Se achar que deve, explique para seus leitores que o que conto aqui aconteceu há quase 50 anos!! O mundo era outro!!! A garotada de hoje, os mais jovens talvez não entendam (talvez??? Com absoluta certeza não entenderão!!!kkk)  e não podemos culpá-los, de jeito nenhum.  Mas era assim. E tão forte e você sabe bem o que quero dizer, que uma vez viajamos, ele, uma colega de turma dele e eu. Viajamos pela faculdade. Ficamos no mesmo hotel,  porém em quartos separados.  Eu não conseguia me imaginar traindo a confiança dos meus pais!!! Sempre levei muito a sério tanto a confiança quanto o respeito. E quer saber? Não me arrependo!

A cada dia juntos nos renovávamos, era extraordinariamente bom e feliz estarmos juntos até que um dia…

Ella interrompeu a história, apesar de minha curiosidade, para atender o celular! Que hora mais errada pra tocar, pensei, mas no mesmo instante me ocorreu que alguém poderia estar precisando dela, então… esperei!!! O que teria acontecido depois desse até que um dia?

– Até que o  que, Ella???  Perguntei quando voltou.

– Eu descobri que ele tinha uma namorada. Caso antigo. O relacionamento era sério,  me disseram, embora não falassem em casamento ainda. Não entrei em choque, mas meu mundo caiu!!!

Devolvi o anel. Pedi que devolvessem. Sem uma palavra. Sem nada. A dor era grande demais até para brigar. Me afastei e não dei chance de uma nova aproximação. Ele tentou, amigos intercederam por ele para explicar o que pra mim não tinha explicação.  Os dias, confesso aqui, não passaram, se arrastaram… Que sofrimento! Mas meu orgulho era maior, meus valores estavam ali, desfilando na minha frente… Tempo ao tempo. Foi o que dei. Com ou sem sofrimento esperei.

Nova interrupção. Desta vez a campainha, e era pra mim. E minha curiosidade a mil torcendo pela volta, um amor tão lindo!!!

Pronto. Podemos continuar. Onde mesmo você parou?

Ella olhou pra mim. E olhando para ela enxerguei a garota que conheceu o que era amar e ser amada quando falou:

– Não me recordo quanto tempo depois, não muito isso eu sei, ele voltou e com ele… o anel, o sorriso, o abraço, o beijo, o rosto molhado e o sussurro em meus ouvidos me apertando da maneira mais forte e doce repetindo, eu quero ficar com você e agora, só seu! Se houvesse uma brecha no meu peito, o coração certamente teria se jogado pra fora!!! Não pulei, nem dancei nem nada, porque não consegui me mexer além do que, eu me sentiria ridícula!!! Mas senti vontade! Meus pés também não me ajudaram!!! Kkk ficaram cravados no chão!!! Kkk

Que período maravilhoso vivemos, mais de dois anos assim… uma das coisas mais encantadoras que ele fazia era a preocupação comigo, com meu bem estar… Não raras vezes, para não dizer continuamente, em épocas de prova me tirava do estudo para tomarmos um sorvete, um café, sempre me mimando, demonstrando de todas as formas o quanto me amava e o quanto eu era para ele. Sempre gentil, carinhoso, amoroso, pleno. Completo pra mim!

Mas, como a vida segue o caminho pelo qual tem que seguir, chegou um novo fim!

Rompemos o namoro. Ele, na verdade. Disse os motivos, fortes, eu entendi, o que não serviu para aliviar minha dor, minha vontade de chorar. Choramos muito. Nós dois. E o mundo novamente… desabou! Saímos machucados, mas estava sendo feito o que deveríamos fazer.

As lembranças mexeram com Ella. Parou novamente e dessa vez olhava para o vazio. Na verdade, um vazio que nunca existiu, acredito, pois foram  tantas as recordações, tantos os momentos compartilhados, tamanha a intensidade da alegria que viveram juntos que, ainda que quisessem, não conseguiriam esconder.  Perguntei se desejaria continuar. Não me ouviu, mergulhada nos pensamentos. Saí da sala, olhei pela janela e percebi que a chuva havia cansado de chover!!! Anoitecia. Separei duas taças da cristaleira, escolhi o vinho que Ella  mais gostava, não esqueci das bolachinhas e me aproximei. Sentamos uma em frente à outra. Brindamos. Ficamos em silêncio alguns minutos. As palavras nem sempre dizem o que diz o coração. Ella me abraçou outra vez e perguntou: Podemos continuar depois? Agora eu gostaria apenas de conversar…

A segunda parte da história… teria que esperar!!!

 

 

 

 

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