Angela Fiorenzo: ‘Caramujo ou borboleta?’

08/11/2020 18:43

Angela Fiorenzo

Caramujo ou borboleta?

Hoje acordei com vontade de não fazer nada planejado… Dormi além do que durmo normalmente, coisa rara, pois depois que acordo… ficar na cama é mais ou menos como um suplício. Não sei você, mas pensamentos que eu não gostaria de ter invadem de tal maneira meu sossego que me dou por vencida e levanto logo da cama!

Esses pensamentos? São aqueles para os quais eu gostaria de ter uma solução, problemas não necessariamente graves, mas que poderiam não existir, porém… não dependem de mim ! Então, se não posso resolver, de que me adianta me concentrar neles? Meu segredo é pular. Pulo um a um depois de ter ido até onde posso. Nem sempre sou bem sucedida na espera sem ansiedade, mas tento sempre. Assim eu aprendi a viver melhor e vou me dando bem, pelo menos é o que acho, não interferindo e nem procurando modificar a vida de ninguém!

Pessoas que reclamam de tudo afastam aquelas que poderiam ser uma ótima companhia. Pessoas que só falam de coisas que poderiam ser e não são como gostariam, se tornam desagradáveis com o passar do tempo… Pessoas que só falam de doença… adoecem o próximo! Desabafar é uma coisa, precisar de um ombro amigo é outra, mas fazer desse tema uma constante nas conversas, um muro de lamentação…  Não quero ser assim, portanto… Fujo de tudo isso! Do meu jeito!

Eu pensava exatamente nisso quando ouvi a campainha. Melhor… Alguém batendo à porta! Em situações como essa eu lembro que preciso de uma campainha!  Quando o porteiro avisa, já deixo a porta aberta, mas algumas pessoas especiais que costumam frequentar sempre minha casa têm entrada liberada e então…lembro da campainha!

Era Ella! Não a esperava hoje, não combinamos almoçar juntas ou sair… Mas estar com Ella é sempre muito bom.

Entrou, perguntei se queria um gim-tônica, igual ao que eu estava tomando, com folhinhas de hortelã colhidas do espaço verde que criei na minha varanda, com muito gelo!

Preparei alguns petiscos, descongelei um daqueles pães que faço, escolhi o de ricota com brócolis, azeitonas e requeijão, um dos meus preferidos, e fatiei um pouquinho de bacon – não sei dizer nem se é e nem o quanto é bom, mas que é delicioso tenho certeza! E nos sentamos para conversar…

Antes mesmo que eu pudesse fazer qualquer pergunta, olhou seria pra mim e foi ela quem perguntou: o que você precisa para sua vida hoje?

Eu? Bem… Eu quero menos para ter mais! Quero menos coisas para ter mais espaço pra mim, respondi convicta da minha resposta e esperando a reação de Ella.

Você também? Pois então querida amiga, tenho pensando igual, venho fazendo isso aos poucos de um tempo pra cá. Nunca conversamos sobre isso, mas sinto que as necessidades diminuíram e o apego a algumas coisas tem se tornado menor… Acredito que não é só com a gente. Chamo isso de síndrome dos 60! Kkkk E ainda estamos nela!!!

Ella riu alto e gostoso!!! Vamos brindar a isso!!! Brindamos, lógico, e continuamos a conversa comemorando nossa amizade e a vida!

Então lembrei de um vídeo que recebi e dessa vez quem tinha o que contar era eu!

Ouvi várias vezes, comentei, para anotar o que a fundadora do “Clube dos 60” falou. As falas vieram ao encontro do que eu sentia!!! Veja só, vou tentar reproduzir para você exatamente o que ela falou:

“A gente precisa deixar a vida mais fácil e mais leve. Hoje quero um ninho menor para poder fechar e viajar com as amigas. O ninho da gente é o retrato da gente. Com o ninho cheio você não se movimenta.  A emoção é maior e está ficando apertada com tantas coisas que a gente tem. A gente precisa liberar espaço. Eu já me desfiz de muito e estou pronta a me desfazer de mais coisas,  quero ter poucas e boas. Quero me apegar às melhores lembranças e ficar com elas e não todas, pois têm muitas que são ruins. Há anos venho acumulando coisas, hoje quero leveza de alma, de casa, de armário, de bolsas! Quero liberar meu closet, principalmente,  por que mulher tem essa coisa de armário lotado, para as coisas que realmente uso e servem pra mim!!!”

Interrompi o que eu contava do vídeo e perguntei a Ella: Você, por exemplo,  quantas bolsas têm? Usa todas? E roupas que não usa e ou não servem mais?

Rimos juntas, porque acredito que todas nós, mulheres, sonhamos com o entrar novamente, um dia,  nos modelitos de antes! Sem contar que nos identificamos também nos argumentos de que as roupas custaram caro e ainda podemos precisar!

Verdade ou mentira??? Não é isso mesmo cara leitora? Verdade, asseguro, que o pensamento é esse, e verdade igual, asseguro do mesmo modo, que temos a esperança de emagrecer um dia!!! Kkk

Voltando ao vídeo, toquei em um ponto fraco meu e de Ella, pois gostamos de cozinhar!!! Quer ouvir o que eu ouvi ???

– Panelas!!! Quantas eu tenho! E quando vou cozinhar para duzentas pessoas??? Vou ficar com duas grandes para quando a família vier e três pequenas, porque hoje minha vida é assim.

– Disso sinto muita falta, disse Ella. A minha vida hoje é assim também. A gente sabe que o tempo passa, mas fica desejando que algumas coisas não mudem… Esperando a família reunida novamente, todos em volta da mesa, a casa cheia como foi no passado e você, no fogão depois de se preocupar com as compras, preparando os pratos preferidos de cada um com prazer e alegria indescritíveis!!! Saudade de ouvir os risos, dos encontros que ficaram na memória, das comemorações e até mesmo das briguinhas que logo eram resolvidas… Do papel que você desempenhava na vida de cada um e foi sendo substituído exatamente porque esse é o caminho…  Cruel? Não acho, embora cause certa tristeza, mas é a lei da vida e como tal, deve ser cumprida!

Ella tinha razão. Terminamos nosso drink, fizemos mais um brinde às recordações que felizmente existem e ao tanto de coisas boas e inesquecíveis que vivemos, agradecemos a tudo e antes de ir para a cozinha preparar o almoço, uma receita que amo e só vi na minha família, perguntei a Ella: não quer saber o final do vídeo?  Sem esperar pela resposta pois sem dúvida seria sim, eu repeti o que ouvi: “não quero me sentir como um caracol carregando a casa nas costas, quero ser uma borboleta enxergando o mundo de cima das minhas asas, não do chão para cima, como um caramujo”.

Retirei uma panela debaixo do armário, olhei bem para ela, vi outra, mais outra e mais outra ainda, em contar as que guardo na despensa e voltei no tempo…  a saudade apertou um pouco o coração, mas a alegria vivida em cada um desses instantes sorriu para ela e convidou,  venha recordar comigo!!!

 

Angela Fiorenzo

amsfiorenzo@gmail.com

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