Andreia Cristina de Souza: ‘O menino do cabelinho enroladinho’

04/01/2019 08:51

Benito era um desses meninos desprovidos de recursos, família desestruturada, onde reinavam violência e ofensas.”

Benito era um desses meninos desprovidos de recursos, família desestruturada, onde reinavam violência e ofensas. Tinha cabelinho enroladinho, barriga saliente, aparência maltrapilha pela situação que vivera em seu barraco de madeira.

Na escola, brigava muito, era agressivo, desatento, faltoso e não realizava as atividades nem nos poucos dias que frequentava a aula. Seu mundo era a rua, o único endereço que conhecia.

Alex e Ana eram irmãos, também de família humilde, pai serralheiro e mãe costureira. Eram cuidados pela avó e tia paterna, no entanto tiveram uma sorte melhor que Benito.

Numa tarde ensolarada, a tia deles pediu que fossem até a padaria para comprarem pão e leite. Prontamente seguiram os irmãos em direção à padaria, que ficava a poucos metros da casa deles. Estavam felizes, pois sempre que iam até lá, podiam comprar um único pedaço de pudim delicioso que era vendido na confeitaria e que dividiriam entre eles.

Compraram o que foi pedido e voltavam distraídos para casa, conversando sobre o apetitoso pudim. Alex era o caçula dos irmãos e trazia em uma de suas mãos, como troco, uma nota de cinco cruzeiros. Não perceberam que logo atrás vinha o Benito, que já percebera a distração deles, se aproximou, pegou o dinheiro e correu em direção a uma praça que ficava em frente a casa da tias das crianças.

Os irmãos, em sua ingenuidade, logicamente foram atrás do menino para recuperar o valor surrupiado por ele. Benito, enfurecido, não gostou que Ana houvesse solicitado a devolução do dinheiro, avistou uma grande pedra que estava no chão próximo a ele, segurou-a em suas mãos e a arremessou em direção à eles, acertando a orelha do Alex, que ficou muito machucada.

A tia das crianças veio desesperada em socorro, e quando viu o menino sangrando, voltou-se em direção ao larápio, segurou-o pelas mãos, abaixou-lhe as calças ali mesmo na praça e deu-lhe umas boas palmadas.

Algumas pessoas, que por ali passavam, ficaram assustadas e curiosas pelo motivo daquele menino estar apanhando da senhora,  perguntaram sobre o ocorrido e tendo a resposta não se posicionaram a favor do menino,  continuaram, então, sua caminhada.

Lágrimas escorriam dos olhos de Benito, que soltou o dinheiro, desculpou-se chorosamente para a tia e para as crianças. Prometeu não mais fazer aquilo novamente e partiu em disparada em direção a sua casa. Ninguém ouviu falar dele por muito tempo.

Muitos anos depois, Benito, que já havia crescido,  encontrou-se na rua com a tia e as crianças também crescidas, novamente se desculpou.

Surpreendentemente, também agradeceu e disse que daquele dia em diante nunca mais cometeu delito algum e tudo isso foi graças às boas palmadas que recebeu de uma senhora desconhecida por ele, mas que mostrou-lhe o caminho a não ser seguido , mesmo que de forma bem dolorosa.

Muitas coisas que acontecem em nossa vida são para mostrar algum caminho a seguir e, para ele, o ensinamento valeu muito a pena.

 

Andreia Cristina de Souza – andreiacrys.s@gmail.com

 

Tags: