Andreia Cristina de Souza: ‘O mistério da jabuticabeira’

20/02/2019 23:58

A curiosidade daquelas pessoas era tanta que começaram a tentar descobrir mais pistas sobre o determinado mistério, afinal, estava ali a chance de enriquecer às custas de um tesouro enterrado.”

Há muito tempo atrás, num sítio, desses onde já residiram famílias ricas, de grandes posses, em época onde o dinheiro era guardado dentro de colchões, havia uma jabuticabeira, tão grande e esplendorosa, com galhos altos e muito ramificados, e que dava frutos vistosos e suculentos.

Mais abaixo dela havia uma casa velha, forrada com teias de aranha por todos os lados, onde morava uma família comum, pai, mãe e quatro filhos, que viviam de agricultura e criação de animais.

Ao anoitecer, sentavam-se ao lado de fora da casa, junto com alguns conhecidos, em volta de uma fogueira com brasas alaranjadas e começavam a contar histórias sobre os moradores antigos daquelas redondezas, que, não havendo lugar para guardar o dinheiro, os donos das fazendas o enterrava embaixo de árvores, para que ninguém pudesse roubar-lhes.

A curiosidade daquelas pessoas era tanta que começaram a tentar descobrir mais pistas sobre o determinado mistério, afinal, estava ali a chance de enriquecer às custas de um tesouro enterrado.

A pista era exatamente a jabuticabeira, que, sempre vistosa, aparentava guardar muitos segredos e, quem sabe, o famoso tesouro escondido.

Algumas daquelas pessoas encorajadas por enriquecer, decidiram participar da grande empreitada, jamais imaginando o que lhes aguardava.

No dia seguinte, ao anoitecer, decidiram procurar o dinheiro embaixo da frondosa jabuticabeira, mas que, na escuridão da noite, não parecia ser tão bela, e sim, muito assustadora.

Armaram-se de pás, enxadas, picaretas, lampiões e foram em busca do cobiçado prêmio. Ao chegarem lá, avistaram a sombra de um homem, com capa e chapéu pretos, olhos brilhantes, barba, assustador mesmo, que apareceu em frente a eles apontando para uma localização e desaparecendo num piscar de olhos.

Sem temer a aparição daquela inusitada figura, começaram a cavar no local apontado pelo estranho ser, porém, sem êxito algum.

Retornaram para a casa, em silêncio, cabisbaixos, tristes por não terem conseguido encontrar o que buscavam com tanto entusiasmo. Quando, finalmente, decidiram falar sobre o assunto, perceberam que estavam afônicos e não conseguiam expressar nenhum som pela boca. Ficaram espantados, pois não sabiam explicar o que havia acontecido e imaginaram que o transtorno pudesse ter sido causado por aquele homem de preto tão assustador.

Ficaram assim por umas três semanas, até que decidiram nunca mais tocar naquele assunto, e, como por um passe de mágica, a voz deles retornou, e finalmente puderam falar. Claro que não sobre aquele assunto tão desastroso.

Num outro dia, uma conhecida da família, que foi passar alguns dias na casa, acordou gritando, desesperada, mas não contou o motivo do tal pânico que a havia deixado com tanto pavor. Não quis nem, ao menos, dormir com as luzes apagadas de tanto medo que sentia. No dia seguinte, menos assustada, e com a claridade do sol iluminando tudo, contou o que houvera. Disse que olhou para a janela que estava com o vidro quebrado, quando apareceu um homem, com chapéu preto e barba, olhos iluminados, que convidou-a a sair de casa e acompanhá-lo até a jabuticabeira. Nesse momento, disse que sentiu seu coração disparado, e acordou a amiga que dormia ao lado. O homem, então, desapareceu.

Com muito medo, não deixou a amiga dormir enquanto ela não adormecesse. A amiga atendeu seu pedido, mas como não gostava de dormir com as luzes acesas, ao perceber que ela havia adormecido, correu apagar as luzes. Assustada, a amiga pressentiu, e logo gritou:

─ Acenda essa luz, por favor!!! Ai, meu coração!!

Decidiram ir embora dali no dia seguinte. Sabiam o horário em que o ônibus por lá passava, e seguiram com o pé na estrada. Mas, notadamente, parece que  não era para as amigas saírem de lá. Esperaram o ônibus por umas quatro horas e nada dele passar.

Iniciaram uma caminhada até outra estrada, no entanto , no caminho, encontraram uma boiada que cruzou e fechou-lhes o caminho. As duas se dividiram pela estrada. Uma seguiu caminho, enfrentando aqueles animais e desapareceu. A outra ficou ali, sentada numa pedra, aguardando que aqueles bovinos livrassem o caminho, mas não foi o que aconteceu. Cansada de esperar e percebendo que não saiam do caminho, decidiu voltar para o assustador sítio.

Noite após noite, a pobre garota era aterrorizada, pois ficou naquele quarto sozinha, acompanhada somente de aranhas e baratas por todos os lados.

Era época de chuvarada e o ônibus não podia passar por aquela estrada cheia de lama. Preocupados com a garota, que não retornou à cidade, os pais foram buscá-la. Quando ela contou o ocorrido, decidiram passar a noite ali para confirmar a história do tal homem do chapéu preto.

Com lampiões, lanternas e alguns cabos de madeira dirigiram-se até a jabuticabeira pra saber se a história era real. Chegando lá, visualizaram o homem de capa e chapéu preto, com seus olhos brilhantes apontando para eles a direção onde havia guardado seu dinheiro enterrado, mas, surpreendo-lhes, disse as seguintes palavras:

─ Vocês podem desenterrar o tesouro e levá-lo embora. Há muitas moedas e dinheiro, que farão vocês muito ricos. Uma riqueza que jamais sonharam. No entanto, se algum de vocês olhar  para trás, ficará aqui comigo para sempre!

Eles se olharam e voltaram para a casa,  para, juntos, decidirem o que fazer. Conversaram entre eles e, na outra noite, dirigiram-se para a jabuticabeira, e lá o homem já os aguardava.

Disseram, então, ao homem que, para eles, o tesouro que mais importava era a família e jamais trocariam um deles sequer por riquezas, que nem ao menos pertencia a eles.

O homem ficou ainda mais iluminado, e com seus olhos muito mais brilhantes, disse-lhes:

─ Vocês realmente amam uns aos outros. Eu, na minha ganância por riqueza, esqueci-me que o mais importante na vida são as pessoas, cai num precipício, e estou aqui desde então. Continuarei oferecendo o tesouro a quem tiver interesse, e, como eu, também for ganancioso. Vocês estão livres para partir em paz. Sigam seu caminho.

Aquele homem a família nunca mais viu. No entanto, ainda dizem que ele aparece para as pessoas oferecendo as tais riquezas. Mas se elas aceitam, aí é outra história…

 

Andreia Cristina de Souza – andreiacry.s@gmail.com

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