Andreia Cristina de Souza: ‘Filó e Rosinha’

31/01/2019 08:29

Época de carnaval, quem não pensa em se divertir, fantasiar-se, fazer as pessoas sorrirem e curtir um pouco de alegria…”

Época de carnaval, quem não pensa em se divertir, fantasiar-se, fazer as pessoas sorrirem e curtir um pouco de alegria…..

Léia e Paula são primas que viviam distantes. Léia morava no interior de São Paulo e Paula na capital do país. Dificilmente visitavam uma à outra, mas um desses encontros foi em tempo de Carnaval e as duas, com vontade de aproveitar um pouco o clima carnavalesco e toda a euforia do momento, decidiram vestirem-se com roupas maltrapilhas, como pessoas humildes,  desprovidas de valores materiais, simplesmente….pedintes. Denominaram-se Filó e Rosinha.

As duas pegaram algumas  roupas mais antigas, vestidos , lenços, blusas e chinelos, montaram a vestimenta e transformaram-se.

Decidiram, então, ir até a casa de outra prima, Ana, que morava a poucos metros da casa, caracterizadas, pensando em fazer um surpresa, e ver qual seria a reação dela ao vê-las com tais trajes. Chegando lá tiveram uma decepção: portão fechado, casa com as luzes apagadas e o silêncio que tomava conta daquele lugar.

Decepcionadas, decidiram  voltar para a casa, cabisbaixas. No caminho tiveram a ideia de continuar a brincadeira, batendo em outras casas, claro que de pessoas conhecidas, para verem como seriam recebidas.

Em uma das casas, bateram e pediram pão duro e um pouco de água, mas o garoto que as atendeu não as reconheceu e, logo, negou o pedido.

Filó insistiu com o menino, tentando convencê-lo a lhe fornecer algum alimento, mas nada conseguiu. Não sendo reconhecidas por ele, naquelas vestimentas, as duas começaram a rir e acabaram descobertas, pois o sorriso de Filó era inigualável, um sorriso cheio de dentes.

O menino chamou as outras pessoas que estavam no interior da casa e todas vieram ver o que as duas primas estavam aprontando. Novamente pediram água, só que, desta vez, foram atendidas.

Continuando a caminhada foram até um semáforo, não para pedir , mas para sentir como seriam recebidas naquelas roupas. Resultado: ninguém olhava para elas. As pessoas fechavam o vidro do carro e ignoravam suas presenças. As duas estavam lá apenas paradas, na escuridão da noite, iluminadas pelas cores do semáforo.

Vários carros passaram por aquelas meninas, mas nenhum deles teve interesse em doar uma mísera moedinha.

Por fim, as meninas perceberam o quanto é difícil viver nessa situação. Não ser percebido ou notado, e somente esquecido pela sociedade. Vivendo em situações subumanas de extrema dificuldade.

Para elas a experiência foi válida, mas, naquele instante, da diversão ao sentimento de tristeza foi um pulo, no entanto a recordação que ficou, nos outros encontros e conversas que tiveram serão eternos e Filó e Rosinha jamais se esquecerão daquele carnaval em toda suas vidas.

 

Andreia Cristina de Souza – andreiacrys.s@gmail.com

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