Andrade Jorge: ‘Ventania’

05/11/2018 18:20

 “Já dobrei os cotovelos nos balcões/ dos enganos,/ fumei sonhos, bebi ilusões,/ cai em ruas escorregadias/ de maldades vadias,/…”

 

VENTANIA

Minha vida

não precisa de metrô

nem de carro pra ir,

desliza na intenção,

já não procuro entender

essas coisas que acontecem,

se bom ou ruim, não importa,

caminho nas retas e curvas,

evito modismos,

amiúde me perco nos becos,

veredas do nada consta,

já dobrei os cotovelos nos balcões

dos enganos,

fumei sonhos, bebi ilusões,

cai em ruas escorregadias

de maldades vadias,

não gritei aleluia, nem rezei,

só pedi, ou clamei, não lembro,

também não sei se ouviram,

joguei fora pesadelos,

desfiz de antiguidades,

rabisquei o novo

endireitei o traço torto,

minha cabeça de mil anos

tem a própria luz

ilumina medos,

esconde receios,

porém sinto falta do ontem,

não apago minha história,

minha lágrima não tem apelo

nem falsidade emocional,

choro o tempo, a ausência,

a ingratidão,

choro o choro por chorar,

sinto as marcas, cicatrizes,

e se hoje o corpo verga

a mente se eleva,

a visão se apura,

enxergo seres dissimulados,

e sei da fala insidiosa, sei da fé;

Minha vida

não precisa metrô

nem de carro,

vai ao sabor do vento,

mas prefiro sola do pé

porque não marquei hora

para ir, nem pra chegar.

 

Andrade Jorge andradejorge2@bol.com.br

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