Adriana Rocha: Expectativas frustradas: a culpa é de quem?

30/09/2019 08:39

Adriana Rocha

Expectativas frustradas: a culpa é de quem?

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Todo relacionamento afetivo tem um começo. E um fim. Sim, pode parecer fatalismo, mas é inegável que em algum momento o rompimento acontecerá. Seja por escolha dos envolvidos, seja por opção unilateral,  por escolhas diversas ou mesmo porque chegou a hora da partida para outra dimensão. Portanto, em nosso espaço-tempo a separação é fato consumado!

Neste contexto, não estou me referindo apenas à afetividade amorosa-conjugal, minhas considerações envolvem os relacionamentos familiares, fraternos (de amizade) e até mesmo os profissionais.

A inevitabilidade das rupturas não me assusta. Tampouco me afasta de criar novos vínculos, de resgatar antigos ou de superar a perda. Reconheço a importância dos momentos compartilhados e da aprendizagem recebida e ofertada. Emociono-me com as lembranças. Sinto saudades!

E a culpa? Aqui meu questionamento é provocativo: exceto quando o afastamento é em razão da morte, há sempre uma pessoa apontando o dedo para outra e comentando com terceiros sobre as “razões” do afastamento. Interessante que é sempre o outro o responsável. Não ouvi ninguém comentando: “sabe, eu decidi me afastar porque não dou conta, porque sou mesquinho, porque não sou confiável, porque não sei ser amigo”.  O que ouço: “sabe, fulano me decepcionou” ou “fulano não correspondeu à minhas expectativas”, “senti-me traído”.

Penso que uma amizade ou um relacionamento que se finda por frustração de expectativa deva mesmo acabar. Expectativas são subjetivas e quem as cria tem a obrigação de dar conta delas. Quem as cria e não a pessoa que é objeto dela. Simples assim.

Mas antes do rompimento a pessoa “objeto da expectativa” teve a oportunidade de saber o quanto dela se esperava? Teve direito a defender-se adequadamente? Foi ouvida? Pôde ouvir? NÃO! O criador de expectativa não dá oportunidade para esclarecimentos. Assim como as criou sem comunicar ao outro previamente, da mesma forma condena, executa e exclui. Senhores e senhoras da verdade. Donos e donas do mundo! Do próprio e do dos outros!

O fato é que ninguém tem como missão de vida corresponder às expectativas criadas. Nem as próprias, tampouco as de terceiros.  Não são promessas ou combinados, são criações unilaterais, por isso,              as frustrações são tão intensas. É como fazer promessa para outro cumprir: quem se dá ao direito de fazê-lo não pode reclamar pelo não cumprimento.

O sentimento de desilusão surge quando a expectativa do indivíduo,  que é uma suposição incerta, ainda que influenciada por fatos, não se concretiza conforme seu desejo. Mas, exceto se o outro realmente se comprometeu com algo e não cumpriu, nada pode ser exigido ou cobrado.

Esclareço: expectativas não são necessariamente ruins ou negativas. São importantes porque significam que aposto na pessoa e nela confio. O problema surge quando transfiro à pessoa toda a carga de minha frustração, porque ela não correspondeu aos meus anseios. Principalmente quando sequer conhecia a extensão do “querer” do outro!

Frustrações de expectativas têm remédio: empatia! Quando me coloco no lugar do outro, entendo seus limites e falhas. Percebo seus sentimentos e aceito suas escolhas, ainda que as considere equivocadas ou inadequadas. Enxergo o outro a partir dele e não de mim. Então, baixo a guarda, ignoro a questão de culpa e se não for possível falar em voz alta (não tenho coragem de me expor tanto), então digo silenciosamente: “Perdoe-me por exigir tanto de você!” Eu me perdoo e ofereço o meu perdão a você.

Perdoados, vamos viver!

 

Adriana Rocha

Adriana@lexmediare.com.br