A CHACINA DO CHARLIE HEBDO EM 10 LIÇÕES – SAIBA COMO ACESSAR AS 16 PÁGINAS DA ULTIMA EDIÇÃO

17/01/2015 20:52

Para os interessados em conhecerem a histórica primeira edição da Charlie Hebdo depois que a revista foi barbarizada pelas bestas-feras do fanatismo religioso no último dia 7, uma ótima pedida é o site francês Kebekmac, dedicado principalmente ao cinema. Basta clicar aqui que as 16 páginas aparecem imediatamente, bastando usar a seta do mouse para ir movimentando a coluna para baixo. 

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NOS BONS TEMPOS, O HUMOR DO CARNAVAL 

NÃO POUPAVA ALÁ E MAOMÉ…

Um dos maiores sucessos carnavalescos de todos os tempos, a marchinha Allah-la-ô (1940), embora creditada apenas a Haroldo Lobo e Antônio Nássara, teve dois outros pais, o jornalista David Nasser e o grande Pixinguinha.

Os versos originais de Nasser eram estes: “Chegou a nossa caravana / À frente vem Maomé / Atravessamos o deserto / Sem pão e sem banana / Sem água pra fazer café / Allah-lá-ô ô ô ô ô ô ô / Mas que calor ô ô ô ô ô ô”  

Haroldo Lobo, autor da música, não gostou e pediu a Nássara que os melhorasse. Este levou a música e a nova letra para Pixinguinha fazer o arranjo. O maestro, no entanto, reescreveu tudo (prerrogativa dos gênios!). Entregou prontinha para o cantor Carlos Galhardo gravar, deste jeito: Allah-la-ô, ô ô ô ô ô ô / Mas que calor, ô ô ô ô ô ô / Atravessamos o deserto do Saara / O sol estava quente / Queimou a nossa cara /// Viemos do Egito / E muitas vezes / Nós tivemos que rezar / Allah! Allah! Allah, meu bom Allah! / Mande água pra Ioiô / Mande água pra Iaiá /// Allah! Meu bom Allah!

Hoje, Haroldo Lobo, Antônio Nássara, David Nasser, Pixinguinha e Carlos Galhardo correriam o risco de serem transformados em peneiras pelos sinistros e sisudos jihadistas, com apoio implícito dos fundamentalistas de ocasião, que não admitem zombarias com as religiões convenientes.

Fazem-me lembrar aquela frase célebre atribuída ao presidente estadunidense Franklin Delano Roosevelt, sobre o então ditador da Nicarágua: “Somoza pode ser um filho da puta, mas é nosso filho da puta”.

Como o mundo piorou! Como Allah e Maomé pioraram! Como a esquerda piorou!

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Tudo perdoado? Não é bem assim. A burrice não tem perdão!

Fico pasmo com a insensibilidade política dos jihadistas. Com uma pueril e sanguinária demonstração de força em 2001, forneceram pretexto para que as nações mais poderosas do mundo desencadeassem uma guerra ao terror no curso da qual direitos humanos foram estuprados como nunca e pacíficos cidadãos de origem árabe perseguidos como nunca.

Quando o pesadelo parecia findo, nova demonstração de força pueril e sanguinária provoca repúdio universal e gigantescas manifestações de rua na França, além de fazer um pouco conhecido semanário satírico, monoglota e com tiragem de 60 mil exemplares, saltar para 17 idiomas e 3 milhões, respectivamente. Mágica besta está aí.

Isto, no momento seguinte. O que virá depois? Uma nova guerra ao terror, mais uma temporada de perseguições aos árabes e truculento desrespeito aos seus direitos humanos e civis, outro ascenso da extrema-direita. O óbvio, enfim. Só os estúpidos kamikazes e seus estúpidos mentores ignoravam como o filme acabaria.

Por quê eles insistem tanto em dar tiros no pé? Simplesmente porque, para os fanáticos asnáticos, ainda não caiu a ficha de que o principal sustentáculo do capitalismo hoje não são mais os efetivos militares, mas sim sua indústria cultural, que faz a cabeça dos videotas em escala planetária. (leia o restante aqui)

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CHACINA DO CHARLIE HEBDO: OS 

FANÁTICOS “AGIRAM COMO FACÍNORAS”.

Ufa! É gratificante constatar que ainda há esquerdistas do passado que não viraram suco nos dias de hoje. 


Em artigo publicado nesta 2ª feira (12) na Folha de S. Paulo, o jornalista Ricardo Melo, outrora um dos principais dirigentes da Libelu, analisou a chacina do Charlie Hebdo exatamente como quaisquer marxistas da minha geração o fariam. Cinco anos mais novo do que eu, foi formado na mesma cultura de esquerda e também se mantém fiel a ela, ao invés de embarcar no sectarismo, no oportunismo, no utilitarismo e no simplismo sem limites.

Eis, na íntegra, seu texto Ateu, graças a deus, que pode também ser acessado aqui. Creio ser desnecessário dizer que com ele concordo em gênero, número e grau.

A barbárie estampada na chacina parisiense suscita inúmeras questões. O ponto de partida: sob nenhum ponto de vista é possível justificar o ataque dos fanáticos contra a Redação do Charlie Hebdo. Agiram como facínoras, quaisquer que tenham sido suas motivações. Não merecem nenhum tipo de comiseração. Invocar atenuantes é renunciar aos (poucos) avanços que a civilização humana proporcionou até agora… (leia o restante aqui)

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A FRASE DO DIA

É difícil aquilatar qual decisão foi mais desastrosa, se a execução de Aldo Moro por parte das Brigadas Vermelhas, o atentado da Al Qaeda ao WTC ou a chacina do Charlie Hebdo. O certo é que o último episódio acarretou um dano incomensurável, não só à causa dos fanáticos religiosos assassinos, como também a todos os cidadãos de origem árabe espalhados pelo mundo. Anos de esforços para erradicar, ou pelo menos atenuar, a islamofobia foram jogados no ralo em questão de horas. Então, a frase do dia só poderia ser esta:

“Quem é burro, 


pede a Alah que 


o mate e a Iblis 


que o carregue.”

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Robert Crumb, outro dos principais cartunistas de nosso tempo, não negou fogo: a pedido do jornal francês Libération, que abrigará a próxima edição do Charlie Hebdo, produziu cartuns solidarizando-se aos seus companheiros chacinados pelas bestas-feras do fanatismo religioso. 

Eles podem ser vistos na edição deste domingo (11) da Folha de S. Paulo.

Charlie na razão e na emoção, Charlie de corpo e alma, Charlie dos pés a cabeça, reproduzo ao lado o único deles que encontrei disponibilizado na web.

Pois, como na ditadura militar, este é um momento em que não podemos ter medo de ser coerentes.

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A OPÇÃO ENTRE CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE 

ASSUME FEIÇÃO DRAMÁTICA PARA NÓS

devemos repudiar firmemente o verdadeiro terrorismo –não confundir com o embaralhamento manipulatório de conceitos por parte da imprensa burguesa, que tenta desqualificar como terroristas as ações de legítimo exercício do direito de resistência a tiranias (caso das guerrilhas latino-americanas da segunda metade do século passado).

Existimos para despertar nos explorados a consciência de sua condição real sob o capitalismo, a fim de que eles comecem a buscar a libertação. Não para aterrorizar a classe dominante com bombas e balas que, desde os tempos do irmão do Lênin, jamais a impediram de continuar dominando.

O preço desta travessura foi pago em fascistização.  

Tais demonstrações de força, quando não são promovidas durante ascensos revolucionários (carecendo, portanto, do apoio ou simpatia da sociedade), levam água para o moinho dos fascistas, facilitando-lhes a disseminação do autoritarismo. Foi o que sucedeu depois do atentado ao WTC e é o que ocorrerá a partir da matança no Charlie Hebdo.

O pior é que a recaída no terrorismo clássico, hoje descartado como contraproducente tanto por marxistas quanto por anarquistas, provém de agrupamentos que nada —ABSOLUTAMENTE NADA!!!— têm a ver com o ideário e as tradições da esquerda: os fundamentalistas religiosos.

Do ponto de vista de quem quer fazer a História avançar PARA ALÉM DO CAPITALISMO, é de uma incongruência extrema qualquer identificação ou condescendência para com fanáticos asnáticos que lutam contra o progresso e a modernidade, tentando fazer com que a História retroceda PARA ANTES DO CAPITALISMO.

Acumpliciarmo-nos com a pobreza espiritual, o atraso e a intolerância medievais só nos traz descrédito, fazendo com que deixemos de ser vistos como uma alternativa consequente à dominação burguesa… (leia o restante aqui)

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…E NENHUMA RELIGIÃO TAMBÉM!

“Imagine que não há paraíso,

é fácil se você tentar.

Nenhum inferno sob nós

e acima, apenas o céu…


…Nada pelo que matar ou morrer

e nenhuma religião também.

Imagine todas as pessoas

levando a vida em paz”

(John Lennon)

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SOU CHARLIE HOJE, COMO ERA 

PASQUIM NOS ANOS MÉDICI.

Sacrilégio é tirar vidas, não satirizar profetas.

Não se relativiza a barbárie.

Nada justifica a persistência da barbárie em pleno século 21.

Fins e meios estão em permanente interação dialética, modificando-se e impregnando-se mutuamente, de forma que agrupamentos coniventes com assassinatos bestiais de não-combatentes como meio projetam, como fim, sociedades nas quais os assassinatos bestiais de civis serão consentidos.

O final da Idade Média significou, entre outras coisas, que não mais se imporiam pela força os valores religiosos àqueles que não os compartilham.

Inquisição, nunca mais! Massacres em nome de profetas, aiatolás, pastores, santos e papas, nunca mais! Censura taciturna, nunca mais!

É totalmente desumana a postura dos que buscam nos atos das vítimas pretextos para atenuarem a culpa dos autores de uma carnificina… (leia o restante aqui)

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ELES IGNORARAM QUE NUNCA SE 

DEVE MATAR UM PÁSSARO IMITADOR…

Fiquei perplexo ao tomar conhecimento do assassinato do cartunista Wolinski, que tanta alegria me proporcionou num momento em que eu dela tanto necessitava.


É difícil concebermos que alguém seja capaz de fuzilar um octogenário, ainda mais sem, sequer, o conhecer.


Só mesmo bestas humanas, movidas pelo mais tacanho dos fanatismos, o religioso. 


A primeira coisa que me veio à mente foi o título original da obra-prima O sol é para todos (d. Robert Mulligan, 1962): To kill a mockingbird.

A sensível menina Scout, a certa altura, diz que nunca devemos matar um pássaro imitador, pois eles cantam para alegrar nossos corações.

Mas, existem os que matam os John Lennons e os Wolinskis. São párias da humanidade e da civilização. São nulidades inconformadas com sua insignificância, que necessitam de atos extremos para sentirem-se vivos. 

Wolinski será para sempre admirado. Eles serão para sempre exec